A recriação do onírico em termos literários e o uso de metáforas expressivas e de descrições tão bem elaboradas que chegam a ser verdadeiras pinturas subjetivas de um mundo há muito desaparecido. É o que mais me impressionou na leitura dos contos de “Bruno Schulz – Ficção Completa” (406 páginas), na edição primorosa (como sempre) da Cosac Naify e que traz ilustrações do próprio autor. O volume faz parte da coleção (que dispensa elogios) Prosa do Mundo.
O polonês Schulz (1892-1942), desenhista e um entusiasta da arte, muitas vezes é comparado a Franz Kafka. Sua escrita, que mergulha em memórias da infância, repleta de metáforas surpreendentes, com um enfoque muitas vezes onírico, calcada mais num impressionismo notável, não “facilita” as coisas para o leitor, sem, contudo, chegar a ser hermética: exige deste uma total abertura a todo um mundo subjetivo pleno de significados ocultos, símiles de tirar o fôlego (tendo em vista as surpresas que o autor apresenta a cada frase) e todo um mundo de poesia concentrada com efeitos mesmerizantes. Mais do que prosa poética: trata-se de linguagem literária levada ao paroxismo da expressividade, da riqueza de significados e conotações.
Quanto à comparação com Kafka (sim, há alguns pontos de semelhança biográfica) no aspecto literário propriamente dito, onde o autor de A Metamorfose busca apreender o mal-estar existencial e as aporias daí advindas, o polonês, que foi assassinado de forma pueril por um nazista, está mesmo mais interessado é na busca de uma descrição caleidoscópica (multifacetada em termos literários) da realidade: uma escrita, em outros palavras, mais voltada às impressões únicas que o mundo ao seu redor nele suscita.
Leitura que tem o efeito de nos paralisar e nos fazer refletir, a cada momento, a cada período mais longo, na riquíssima linguagem plena de ressonâncias internas. E lançando mão de pinceladas em forma de palavras.
"Então, a época genial resistiu ou não? É difícil responder. Sim e não. Porque há coisas que não podem acontecer totalmente, até o fim. São grandes, são magníficas demais para caber num acontecimento. Apenas tentam acontecer, só verificam se o solo da realidade as suporta. E logo recuam, com medo de perder a integridade na deficiência da realização".
(Trecho do conto O Livro)