A sátira é necessária! Uma purgação geral, um ajuste. Individual e coletivo. Livro saborosíssimo, de capítulos curtinhos que você pode ler a gosto. A leitura dos capítulos em sequência é apenas uma das possibilidades desse tecido maravilhoso.
A linguagem jorra criatividade! Os personagens contam estórias para ilustrar seus pontos, o que nos faz lembrar as "mil e uma noites" árabes. E são causos da tradição oral da Europa medieval, assim como da cultura clássica de Rabelais. Essa cultura clássica que geralmente, estanque, virava um pântano fedegoso na mente dos eruditos, Rabelais lhe confere vivacidade, a integra nas águas correntes da vida.
E às vezes jorram duas, três, quatro estórias pra ilustrar um ponto. Rabelais se deixa levar pela pura criatividade da linguagem e, assim, nos carrega, nos recarrega.
Filosofias, ciências, artes, religiões e místicas: Rabelais dá uma sacudida geral nas humanezas: “Devo ou não casar-me?” pergunta-se Panurge e sai a consultar em toda parte pra ver se alguém o ajuda a resolver questão tão prática.
Nisso, lembrou-me um outro grande livro posterior, “A história de Rasselas”, de Samuel Johnson. No entanto, no livro do inglês, o protagonista busca resposta mais geral e abstrata (“Há alguma forma de viver que nos faça felizes?”) e sai consultando gentes que levam diferentes formas de vida. Panurge quer apenas uma resposta a uma pergunta bem concreta e específica, bem prática. E daí se faz essa obra-prima universal! Universal!
Recomendo que não se interrompa a leitura a toda hora pra olhar as notas. A maioria delas é dispensável e se o leitor ficar interrompendo o fluxo da leitura para tomar informações históricas, filológicas etc. a todo momento vai acabar perdendo o gosto da leitura e abandonando o livro (e ainda vai sair falando mal do Rabelais). Por isso, o prazer do leitor será maximizado se ele já tem alguma cultura clássica e medieval: ele vai ver as estórias e histórias que já conhece isoladamente se integrarem como peças que contribuem para o funcionamento perfeito da grande maquinaria rabelaisiana.