Existe Consciência na Inconsciência?
“Há muitas maravilhas neste mundo, mas a maior de todas é o homem.” Sófocles Confesso que esta foi a obra mais difícil que tive o prazer de me deparar, mas depois de terminá-la a sensação de dever cumprido e o “aprofundamento mental” que senti depois de tamanha dedicação, compensaram as horas debruçadas sob uma literatura complexa, subjetiva, metafísica e acima de tudo genial! “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud provoca uma ruptura absolutamente radical na maneira de abordar o homem em 25 séculos de pensamento. Todas as filosofias, toda a psicologia incipiente, toda a ciência até Freud, se preocupava com o homem em seu aspecto consciente. Para Freud, o conceito de inconsciente e a formulação de que o homem não é senhor em sua própria morada tem importância equivalente às rupturas causadas pela passagem do teocentrismo para o heliocentrismo e pela comprovação da ascendência animal do humano. Ou seja, para Freud não importa muito aquilo que somos conscientemente, pois esse estado psicológico geralmente é mascarado pelas necessidades naturais que cada um temos. Esse é o estado em devemos nos resguardar para “o bem e para o andamento da sociedade”. O que realmente importa para Freud é o nosso lado reprimido, aquilo que somos obrigados a esconder para que as regras sociais possam continuar em andamento, para que a racionalização domine a barbárie e que assim possamos ser “civilizados”. Em ” A Interpretação dos Sonhos”, Freud formula as leis e as características do inconsciente. Com este conceito consegue juntar fenômenos distintos como o sonho e os sintomas histéricos. A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Este desejo, entendamos, não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida vigil (Vida desperta/ No caso, aqui dito: vida real). Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado 'recalque'. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos. Mas os sonhos têm por característica sua falta de senso, sua não obediência às leis que nos regem na vigília. O que Freud formula é que os sonhos seguem uma lei própria, seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. É levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência, cujas regras reconhecemos, e pelo inconsciente, cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar). A obra é dividida em vários ensaios independentes, mantendo entretanto a unidade. Cada parte aborda um aspecto da sociedade: a política, o sionismo, a literatura, as artes plásticas, a música. A estrutura geral está - salvo alguns capítulos - na forma biográfica. O livro é uma boa referência para se compreender a espécie de ambiente cultural em que o judeu Freud e sua obra se inseriram. E dentro dele, ainda encontramos várias ligações de sua vida cotidiana e também de suas frustrações pessoais, Freud se entregou a seu livro, assim como o inconsciente humano se entrega aos sonhos. Esta é uma obra instigante pela clareza, pela perspicácia da análise e pelo fato de os elementos tratados poderem muitas vezes ser reconhecidos na nossa própria realidade cotidiana.
