A Guerra de Tróia é um dos assuntos mais fascinantes desde a Antiguidade, e uma das histórias mais famosas junto com a Odisséia e tema de diversos filmes, livros, peças de teatro e tudo o mais. Sempre vista através de olhos masculinos, a Guerra de Tróia nunca foi tratada com tanta delicadeza como pelo livro de Francesca Petrizzo e ainda me fez lembrar outro livro similar, A Odisséia de Penélope.
O que temos no livro é uma Helena humana e mulher, longe de sua aura de divindade da beleza que foi tão divulgada no decorrer dos séculos e das histórias. Para cenário dessa história temos a Grécia Antiga, com suas histórias de heróis e deuses, seus reis, a corrupção vinda do poder, os jogos de interesse e a liberação sexual como um direito exclusivamente masculino, ou seja, uma época em que ser mulher não era nada bom.
Acompanhamos através da narração em primeira pessoa desde a infância até seu retorno a Esparta após a guerra. Ela nasce como uma princesa, solitária e por vezes desprezada até mesmo pela própria mãe. Vitima de sua própria beleza, é sequestrada ainda criança por Teseu, mas é salva por um soldado que se torna seu primeiro amor e seu primeiro fantasma. O primeiro de muitos, recolhidos durante uma vida, onde ela tenta encontrar a si mesma e o seu coração.
Seu primeiro amor, o único que nunca beijou, morreu durante uma epidemia de febre, fazendo-a a abandonar sua beleza e ficar taxada de Helena, a louca. Seu segundo amor, Diomedes, reacende a chama que parecia adormecida dentro dela e a desperta enfim para sua feminilidade. Porém, após o fim de seu noivado com Diomedes e o anúncio de seu casamento com Menelau, Helena se vê novamente apagada, até que surge Aquiles e seu fogo, com um pedido a bela princesa: Não deixem que a apaguem.
Depois, após anos de um casamento frustrado e infeliz, Paris surge e com ele a fuga de Esparta e o surgimento de Helena de Tróia, a bela, a mulher que se tornou a desculpa para a destruição de todo um povo, a prostituta das lendas. Mas não há amor de verão que dure para sempre, e quando Paris passa a despreza-la, Helena se vê sozinha e em sua solidão descobre um novo e mais duradouro amor, Heitor.
A visão dela sobre sua própria vida e trajetória mostra não a Helena do mito grego, mas a Helena mulher, que ama, que luta com suas poucas armas contra o seu destino. Uma Helena que tem medos, que por muitos anos renegou sua beleza e sexualidade, vitima de seu medo de nunca se encontrar ou ser de verdade. Com este retrato poético, Francesca descreve as mulheres em sua essência, que parece não ter mudado em muitos séculos.
Em relação a estrutura da narrativa, ela é envolvente, simples e rápida.Francesca possui a maestria de uma contadora de história, que usa de todo o seu talento para nos fazer identificar (e nos apaixonar) pela protagonista, deixando ela tão perto de nós que é estranho lembrar que se ela realmente existiu, foi há tanto tempo atrás e que ainda assim, sua presença torna-se atual, como se pudéssemos encontrá-la ali, ao dobrar de uma esquina, ou em algum bar, sozinha, bela, com seus olhos ardendo com uma chama interior capaz de existir somente naquelas pessoas que lutam contra um destino e a favor dos caminhos de seu coração.
Este é um livro que merece figurar em qualquer estante, fazendo parte da leitura obrigatória de qualquer entusiasta da mitologia grega, não por trazer um mito, mas por desconstruir um e trazê-lo cada vez mais para a realidade.