Houve uma época em que eu tomava metrô e aproveitava para ler livros entre as estações. Hoje eu ando pouco de metrô, e a praticidade dos conteúdos off-line do celular leva a melhor sobre os livros. Mas se eu tivesse hoje que escolher livros para ler em percursos de até uma hora de transporte público, seriam os da série Duplo da Devir. Livros pequenos e leves, fáceis de segurar com uma mão enquanto a outra agarra as barras do vagão ou do ônibus, formato de bolso (cabe até em bolsos pequenos), mas com capas resistentes, sempre com dois contos bem escolhidos.
O livrinho Duplo Sobrenatural é um bom representante da série. Os dois contos, “O Recipiente”, de Orson Scott Card, e “A Fábrica”, de Carlos Orsi, são legítimos representantes daquela linha do gênero do terror em que o sobrenatural invade, devagar e angustiadamente, a existência comum - numa alegoria de como o terror tem invadido nossa vida real.
Em “O Recipiente”, como eu já escrevi num histórico de leitura, começa com Orson Scott Card mesclando numa cena duas de suas especialidades: bullying de pré-adolescentes, e reencontro de uma família disfuncional, para depois subverter as convenções do gênero. Infelizmente, ele não repete as performances de “O Jogo do Exterminador” e “O Orador dos Mortos”, até por causa dos limites do formato conto. Ainda assim, a qualidade é muito boa, e certamente superior a “Um Planeta Chamado Traição”. Infelizmente, os erros de revisão da tradução estragam a leitura. Erros de revisão mesmo: com uma frequência irritante para um texto tão curto, encontramos erros de digitação (de digitação mesmo, não de tradução) que passaram pelo revisor e foram para a gráfica. Não sei para vocês, mas para mim isso irrita o bastante para eu tirar uma estrela da minha avaliação.
O segundo conto, “A Fábrica”, do brasileiro Carlos Orsi, não tem esses erros, provavelmente porque o original em português já estava revisado. Achei maravilhoso o texto que mistura horror lovecraftiano misturado com pitadas de terror brasileiro de quadrinhos a la Eugênio Collonese, Jayme Cortez, Flávio Colin, Rodolfo Zalla e outros. O leitor de Lovecraft sabe aonde vai dar a pesquisa sobre a opressiva arquitetura fabril do professor da interiorana Universidade Particular de Araçaí (a versão orsiana da Miskatonic University), mas é refrescante ver os conceitos do provinciano e racista autor da Nova Inglaterra sendo relidos num cenário nacional dos anos 1990. Se fosse para classificar apenas esse conto, eu daria cinco estrelas.
Então eu recomendo o livro para quem curte fantasia, terror e ficção científica nacional, para quem curte Lovecraft, e para quem é fã de Orson Scott Card e vai conseguir ler o conto dele sem se irritar com os erros de revisão.