Vestígios Recuperados: Experiências da Comunidade negra rural de Tijuaçú-BA -

    Carmélia Aparecida Silva Miranda

    ANNABLUME
    2009
    174 páginas
    5h 48m
    ISBN-13: 9788539100286
    Português Brasileiro
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    Regina Teixeira Barreto picture
    Regina Teixeira Barreto02/06/2012Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Resenha do texto: “VESTÍGIOS RECUPERADOS: Experiências da comunidade negra rural de Tijuaçú – BA” Regina Teixeira Barreto MIRANDA, Carmélia Aparecida Silva. Vestígios Recuperados: Experiências da comunidade negra rural de Tijuaçú – BA./ São Paulo: Annablume, 2009. 174 p. Carmélia Aparecida Silva Miranda é professora adjunta na UNEB de Jacobina. Professora permanente em dois programas de mestrado (História Regional e Local, e, Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional) na UNEB de Santo Antônio de Jesus. Coordenadora do Arquivo Público de Jacobina - BA. Coordenadora do colegiado de História na FACSB em Senhor do Bomfim- BA, membro do conselho Municipal de Cultura de Senhor do Bomfim- BA. Recebeu o premio “Margarida Alves de Estudos Rurais e Gênero” (2007) do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Em 2009 publicou o livro: Vestígios Recuperados: Experiências da comunidade negra rural de Tijuaçú- BA. Foi resultado de sua tese de doutorado. Tijuaçú é uma comunidade localizada no município de Senhor do Bonfim (onde a autora reside desde sua infância), e constituída por habitantes afrodescendentes. Em sua obra, a autora propõe discutir sobre a história de Tijuaçú. Baseando-se em fontes orais, e documentações escritas, vai ao longo de sua pesquisa, analisando e respondendo questões como: “o que levou os primeiros habitantes a ocuparem essas terras? Qual a trajetória do Samba de Lata e das outras manifestações culturais ali existentes? Qual o olhar da população sobre sua afrodescendência? E qual a reação da população após o reconhecimento como remanescente de quilombo?”. (MIRANDA, 2009, p.19) No primeiro capítulo a partir de depoimentos concedidos pelos moradores à autora. Desvenda-se a origem dos primeiros habitantes da comunidade, sendo três negras, escravas, fugidas do Recôncavo. Mariinha Rodrigues ganha destaque na história. Pois foi a única que permaneceu, e que ali nas terras de Tijuaçú, (na época conhecida como fazenda do Lagarto), disseminou sua descendência, “estrategicamente, povoou as terras de Tijuaçú, pondo em cada localidade um filho, com o objetivo de tomar posse dessas terras, por uso de ocupação.” (p.33). Os laços familiares, e as relações com a terra, também são analisado nesse capítulo. “Os habitantes de Tijuaçú zelam pela terra e suas famílias, pois estás representam sua identidade” (p.30). Eram comuns casamentos entre pessoas de mesma família. Assegurando-os assim que pessoas de fora não tomariam posse de suas terras, “pois a terra é o único bem desses residentes” (p.30). As tradições culturais são permitidas serem passadas por hereditariedade, devido a essa “preservação do sistema de parentesco” (p.31) essas tradições são passadas através da oralidade, da memória. Nesse capitulo também foi discutida a identidade desses habitantes, quanto pertencentes a uma comunidade quilombola. Será que eles se reconhecem como tal? Essa é a pergunta que se tentará responder. É relatada também, a formação dos quilombos por escravos fugidos para o sertão de Jacobina em meados do século XIX, e as dificuldades que esses escravos fugitivos encontraram para efetuar sua formação. O papel desenvolvido pelas mulheres Tijuaçuenses, são analisados no segundo capitulo. Mostrando as dificuldades que essas mulheres enfrentam, para garantir a sua sobrevivência e de seus familiares, mulheres que nos palcos da vida interpretam diferentes papéis ao mesmo tempo: mães, “domesticas”, “lavadeiras”, “roceiras”, “feirantes”, “artesãs”, “sambistas”, “percussionista” e como Dona Dalva e Ilca, lutadoras em prol dos direitos da comunidade. A autora narra as lutas enfrentadas por Dona Dalva e Ilca contra o poder público, para garantirem seus direitos. Em depoimento Dalva relata que o prédio escolar e o tanque, foram construídos na comunidade, a partir de um pedido seu ao prefeito. Mostra o engajamento de Ilca na Associação Quilombola e Adjacências, assumindo papéis como: secretária e vice-presidente. O texto também relata histórias como as de Genoveva e Joana Rodrigues. Genoveva (que já morreu) é na memoria de alguns moradores de Tijuaçú, a criadora do samba de lata, uma das mais importantes manifestações culturais, ainda presente na comunidade, composto quase por maioria de mulheres, os homens também participam, mas no momento o grupo se encontra assim. Depois da morte de Genoveva, é sua filha Joana Rodrigues, que deu continuidade a tradição. As manifestações religiosas também compõem o cotidiano da comunidade, com o coro da igreja católica, criado por Detinha (que acha que o descaso do poder público para com á comunidade Tijuaçú, é por preconceito racial) composto por maioria de jovens, e os festejos de São Benedito. Essas são apenas algumas mulheres estudadas pela autora, no capítulo, segue também a história de: Marinalva Silva Santos (destaca-se em Tijuaçú, pelas suas diferentes funções: percussionista, vendedora de milho assado, merendeira, lavadeira), Maria Anísia Rodrigues (segundo a autora: “É referencia para aqueles que querem conhecer a história de Tijuaçú” (p.87)), entre outras. Mulheres, negras, pobres, que vedem: acarajé, milho assado, umbu, artesanatos, entres outras iguarias, nas feiras de Senhor do Bomfim, que trabalham na roça, cuidam de suas casa e famílias, que lutam pelos direitos da comunidade, que estão à frente das manifestações culturais, religiosas, que ocupam a liderança, dentro da comunidade. No terceiro capítulo Miranda, dedica-se, ao estudo das manifestações culturais, e seus significados para os habitantes negros desde o período da escravidão, até as comunidades remanescentes quilombolas. Em Tijuaçú destacam-se, o Samba de Lata, que representa muito mais que valores culturais, “atendendo aos valores sociais de solidariedade e de sobrevivência” (p.112). As letras do samba estão ligadas ao cotidiano das pessoas. Até mesmo o instrumento musical principal, é aquele usado no dia-a-dia como instrumento de trabalho. Relatos de moradores de Tijuaçú, recolhidos pela a autora, mostram que essa manifestação cultural, já estava presente na comunidade, desde seus primeiros moradores. Sendo a principal manifestação cultural de Tijuaçú, e até mesmo do município de Senhor do Bomfim. Outras como a Dança do Parentesco (por que todo mundo é parente), Dança do Arco-íris (composto por mulheres, vestidas com roupas coloridas), e Latinha na Mão (composto por crianças de 7 a 14 anos) também ganham seu espaço. As manifestações religiosas também são apresentadas pela autora. O povo de Tijuaçú é devoto de São Benedito, um santo negro. Relatos de morados, apresentados pela autora mostram que a devoção ao santo vem desde os primeiros moradores. Os festejos em homenagem ao santo acontecem do dia 1 de novembro. Nesse capítulo, Miranda conta de onde vem à devoção ao santo, e ainda diz que povo de Tijuaçú, tem medo de serem discriminados por participarem de terreiros de candomblé, e assim somente algumas pessoas os frequentam, as escondidas, em localidades vizinhas a Tijuaçú. Em conclusão, a autora ressalta que: “A identidade Cultural dessa população está em construção, sobretudo após o reconhecimento da comunidade como remanescente de quilombo, o que possibilitou a elevação da auto-estima dos moradores e sua auto-.identificação enquanto afrodescendentes.”(MIRANDA,2009,p.140) O que pode levantar indagações, como: que outras comunidades quilombolas passam por esse processo de construção? Onde? De que forma? Como sua pesquisa usa a metodologia da História Oral, a autora remete no decorrer de sua obra, sobre a sua importância. Miranda diz que: “a memória constitui-se como elemento de significativa importância para reconstituição do processo histórico...” (p.32). Fazendo assim um resgate das memórias dos Tijuaçuenses, sendo elas importantíssimas para desvendamento história dessas pessoas. Vestígios Recuperados: Experiências da Comunidade negra rural de Tijuaçú- BA é uma obra de muita importância para aqueles que, buscam entender o desenrolar das comunidades quilombolas. Para aqueles que pretendem seguir o caminho da história oral, do resgate de memória. Para quem busca compreender a trajetória dos afrodescendentes, principalmente no que se refere aos territórios de Senhor do Bomfim e Jacobina. Para quem procura desvendar histórias de mulheres afrodescendentes. Conhecer as manifestações culturais, religiosas, sociais das comunidades quilombolas. A relação dos afrodescendentes com a família e a terra. Entre outras riquíssimas informações que o livro proporciona, junto com uma leitura leve e agradável.

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