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    Curso de Integração Pessoal - Estudos Caracterológicos

    Mário Ferreira dos Santos

    Livraria e Editora Logos Ltda
    1956
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    3.8
    14 avaliações
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    Favoritos2Desejados46Avaliaram14

    Durante os meus anos de magistério, como professor particular, fui muitas vezes procurado por pessoa aflitas, angustiadas, que buscavam um lenitivo para as suas almas magoadas, doridas de tantas preocupações, desencantos e amarguras. E como também os meus dias estiveram cheios de decepções, de angústias sem fim, compreendi a todos, e cada um, e em meu coração ressoaram aquelas queixas e apelos. Também minha vida foi procelosa; também passei por lanços dolorosos no caminho, pontilhados de ingratidões, de amarguras demoradas, de incompreensões inexplicáveis, de inimigos gratuitos que atuavam nas sombras e de raros adversários que me enfrentaram de fronte erguida, e não poucos foram os momentos em que, debruçando-me sobre as minhas experiências, abismei-me em desânimos e até em desesperos. E por todos os meios, ante o espetáculo do mundo, sem deixar-me arrastar pelo pessimismo fácil, procurei aquela fonte, a única, que nos pode dar a linfa que aminora a nossa sede e refrigera as nossas mágoas: um otimismo, concreto e bem fundado. É comum entre literatos da nossa época tripudiar sobre as dores humanas, remexer feridas em vez de cauterizá-las. Há quem busque angústias quando não as tem, numa morbidez afanosa de sofrimentos, mais falsos que verdadeiros, para depois criar, com gritos de dor, obras nem sempre autênticas. Há quem diga até que o otimismo é uma atitude de filosofia barata. Mas há algo mais barato que o pessimismo? Olhem para o mundo. Quantos os que se queixam, quantos os que se angustiam, açulados pela imaginação doentia; quantos proclamam angústias (as famosas angústias físicas e metafísicas de tantos intelectuais)! Quantos procuram mágoas para explorá-las? Há coisa mais barata por este mundo? O otimismo é a mais difícil das atitudes, e a filosofia, que nele se funda, não é a mais fácil. É mais simples lembrar os momentos de sofrimento que os de alegria. E deixando de lado os envenenadores da vida, os caluniadores de que falava Nietzsche, os eternos amarguradores de todos os instantes, deficientes daquele "granus salis", chorões de todos os modos e matizes, falsificadores de máscaras mentirosas, abismados em sombras porque temem a luz como pássaros noturnos e duvidosos, sempre julguei que um sorriso valia mais que um esgar de amargura, e que um raio de sol é mais belo que a sombra que obscurece. E foi procurando viver em mim a água lustral da alegria, que pude suportar o espetáculo das velhas carpideiras milenárias. E buscando essa água lustral, não a quis só para mim. E abençoei aqueles escritores otimistas, ridicularizados pelos caluniadores da vida, aqueles que sempre oferecem esperança num gesto de genuino apoios aos transviados, que procuram caminhos luminosos dentro e fora de sí. E quando de mim se acercavam os que pediam um pouco de tranquilidade de espírito, não o neguei. E o gesto, que de mim esperavam, procurei realizar. E nessas tentativas humanas, ao procurar aminorar mágoas mais profundas, ao procurar suavizar corações doridos, ao procurar reintegrar outros que se frangiam em dúvidas e desesperos, nasceu este curso, que só bem espargiu, que só humanidade disseminou, que só esperanças construiu. E buscando e estudando, através de meditações e ensaios, saíram estas páginas que hoje dou à publicidade. Anima-as apenas um desejo e uma convicção. Desejo de não aumentar a tristeza do mundo, rebuscando sombras para cobrir as poucas luzes que brilham nos corações, como é tão do sabor dos que desejam tornar de outros as angústias duvidosas que são suas. Convicção de que elas serão boas, suaves e humanas, verdadeiramente vividas, para que auxiliem aos que sofrem a encontrarem uma solução aos males psíquicos, e que se reencontrem, afinal, com um sorriso autêntico nos lábios e muito amor nos corações.

    Resenhas (1)Ver mais
    Gabriel Peixoto Hoff picture
    Gabriel Peixoto Hoff13/06/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    "Vence a ti mesmo"

    O livro em questão não pode ser, de modo algum, entendido isoladamente da obra de Mário, assim como de suas influências. O homem é substância composta: forma e matéria ou alma e corpo. Na obra Didascálicon, Hugo de São Vitor estrutura, provavelmente com influências socráticas (Platão, Aristóteles) e cristãs, as diversas potências da alma humana. Trata-se a primeira de potência vegetativa, uma capacidade de crescer, que aparece principalmente nas plantas. A segunda, potência sensitiva, diz respeito às capacidades do homem de ter sensações acerca do meio físico. É de se notar que esta guia a primeira: o animal irracional possui tanto capacidade vegetativa quanto sensitiva, mas a esta que aquela está subordinada. Não obstante, o homem transcende estas duas potências, pois possui uma potência racional. Do mesmo modo, as outras duas submetem-se à ela. O que Mario busca é justamente ajudar-nos a conseguir que esta última potência seja a referência das outras duas, não o contrário. O mental (que é a nossa racionalidade, afetividade, imaginação, etc.) é primordial no ser humano, e é à ele que todos nós devemos nos submeter, sob pena de a nossa racionalidade ser meramente ilustrativa. Mas este caminho é difícil e traiçoeiro. Através de uma exposição cuidadosa e sistemática dos conteúdos, de modo que o domínio sobre nós mesmos consiste no objetivo precípuo, Mario apresenta-nos o caminho para a integração do eu (isto é, a consistência da tensão psíquica), desde o conhecimento das características mais ideais (em sentido weberiano) que irão permitir o nosso auto-conhecimento até indicações práticas para real efetivação. O domínio sobre si mesmo é o ápice humano. Sintetizando em uma frase do próprio Mário os intentos de sua obra: "a liberdade plena consiste no pleno domínio do mental", ou seja, no domínio da alma sobre o corpo, da forma sobre a matéria.

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    Mário Dias Ferreira dos Santos profile picture

    Mário Dias Ferreira dos Santos

    Filósofo, escritor e tradutor brasileiro, escreveu sobre várias disciplinas em sua <i>Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais</i> e desenvolveu seu próprio sistema filosófico, a <i>Filosofia Concreta</i>. Era um socialista libertário e anarquista cristão.

    60 Livros
    114 Seguidores
    São Paulo, Brasil

    Mário Dias Ferreira dos Santos