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    A Barbárie -

    Michel Henry

    É Realizações
    2012
    216 páginas
    7h 12m
    ISBN-13: 9788580330830
    Português Brasileiro
    3.3
    9 avaliações
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    Este livro partiu de uma constatação simples, porém paradoxal, de nossa época, caracterizada por um desenvolvimento sem precedente do saber, caminhando lado a lado com o desmoronamento da cultura. Pela primeira vez na história da humanidade, saber e cultura divergem a ponto de se contraporem em um enfrentamento gigantesco – uma luta mortal, a crer que o triunfo do primeiro acarrete o desaparecimento da segunda. Publicado pela primeira vez em 1987, A Barbárie suscitou grande interesse, mas também críticas virulentas. Ainda se revela de uma atualidade cruel, "esse sentimento trágico de impotência que todo homem culto experimenta hoje diante dos fatos". Importa, para pensar nossa era, retornar às reflexões de um filósofo que analisa e pensa as causas da barbárie de nosso mundo.

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    Bruno Sunkey 05/03/2020Resenhou um livro
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    A BARBÁRIE (RESUMO)

    I. CULTURA A barbárie é a ruína da cultura. Podemos considerar cultura como uma forma de organização social que apresenta leis e tipos de condutas que se destinam a tornar possível a existência e a sobrevivência de um grupo. Toda cultura é uma cultura da vida, pois a vida constitui o sujeito e o objeto da cultura. Cultura significa a autotransformação da vida, o movimento por meio do qual ela não deixa de alcançar formas de realização mais elevadas, a fim de crescer. A cultura é o conjunto de todas as experiências, no sentido de todas as experiências por meio das quais a vida se realiza. Os modos de realização da vida são: (i) a arte: atividade na qual se realiza os poderes da sensibilidade e que pode ser considerada como representação da vida; (ii) a ética: não deve ser entendida como uma relação entre ações e fins, normas ou valores, mas como o saber primitivo primordial da vida, da subjetividade que se conhece a si mesma; longe de determinar a ação da vida, fins, normas e valores são determinados por ela; (iii) a religião: a religião penetra na vida cotidiana, dando ao conjunto de atividades de uma cultura fins extraordinários. A arte, a ética e a religião constituem as formas fundamentais de toda cultura e seu conteúdo essencial. II. CIÊNCIA Pela primeira vez na história da humanidade, o conhecimento e a cultura divergem. A ciência, tal como a entendemos hoje, é a ciência matemática da natureza que faz abstração da sensibilidade. A ciência, seguidora do pensamento galileano, declara o conhecimento sensível da vida como ilusório e coloca em seu lugar um conjunto de idealidades, como ilustra a geometria, e ela não só abstrai da sensibilidade, como se declara como único conhecimento válido. O conhecimento científico é objetivo e objetivo significa que o conhecimento científico é racional, universalmente válido e como tal reconhecido por todos. É o conhecimento verdadeiro por oposição às opiniões variáveis dos indivíduos, aos pontos de vistas particulares, a tudo que é apenas “subjetivo”. A ciência exclui a esfera da subjetividade, das sensações, das opiniões e dos pensamentos pessoais (o mundo do espírito, o mudo-da-vida) e coloca em seu lugar um conjunto de idealidades, as determinações geométricas e matemáticas (o mundo da ciência). O mundo da ciência é um mundo que não leva mais em conta a sensibilidade. No entanto, esse afastamento das propriedades sensíveis e afetivas do mundo pressupõe o afastamento da própria vida, isto é, do que constitui a própria humanidade do humano. A ciência não tem, enquanto tal, nenhuma relação com a cultura, e isto por que a ciência se desenvolve fora da esfera da cultua. A ciência, na medida em que exclui a subjetividade e a sensibilidade, exclui também a arte. A sensibilidade é a condição fundamental de tudo o que é suscetível a forma de um mundo, ao eliminar a sensibilidade, o mundo científico se apresenta como um mundo puramente abstrato. Quando o conhecimento que regula a ação é o conhecimento científico, disso resulta: (i) em que a natureza desse conhecimento mudou totalmente, não sendo mais a vida, mas uma consciência de objeto, uma forma de conhecimento na qual se faz abstração dos sentidos; (ii) em que esse conhecimento não é mais em si mesmo a ação e; (iii) em que esse conhecimento também não é conhecimento da ação e isso porque a ação não é nada de objetivo. O conhecimento da ciência se tornou justamente o conhecimento de uma objetividade. III. TÉCNICA A ciência que se acredita só no mundo e que se comporta como tal se torna a técnica, ou seja, o conjunto de operações e transformações que busca sua possibilidade na ciência e em seu saber teórico, com exclusão de qualquer outra forma de saber, com exclusão de toda referência ao mundo da vida e à vida. É o conhecimento da ciência, mais precisamente da ciência da natureza, que define o conhecimento da técnica, em lugar do conhecimento da vida. Técnica designa de maneira geral um saber-fazer, o saber-fazer original é a práxis e, desse modo, a própria vida, pois é na vida que a práxis se conhece. Assim, a essência original da técnica moderna que abstrai da vida é a própria vida, não é uma essência ideal flutuando em algum lugar diante de nós, em um espaço inteligível. A essência da vida que se afeta a si mesma é a da ipseidade. Essa práxis determinada, singular e individual é nosso Corpo. A aplicação dos poderes do corpo subjetivo, choca-se com um obstáculo que não cede mais, a Terra, na qual vivemos. O sistema formado por meu corpo em movimento e se esforçando, meu corpo imanente absolutamente subjetivo e absolutamente vivo, pelo corpo orgânico que se retrai e cede sob seu esforço, pela Terra, enfim, que se recusa a se dobrar e se opõe a esse esforço, dando-se a ele como o que ele não pode mais vencer bem dobrar, tal é a essência original da técnica. A representação da práxis suscita a ideologia que interpreta a técnica como a transformação instrumental da natureza pelo humano, tendo em vista os fins postos por ele. De um lado, semelhante ideologia representa a Corporificação original do Corpo e da Terra no interior da Vida. De outro, enquanto sua representação, ela o altera, tornando-a inteligível em si mesma, ao retirar a ação de seu meio ontológico próprio; e tornando a si própria inteligível ao romper a unidade interna do desenvolvimento imanente do corpo orgânico, assumindo as categorias do pensamento racional no lugar das categorias do Corpo. A técnica é a natureza sem o humano, natureza abstrata, reduzida a si mesma, devolvida a si. A técnica é a alquimia; é a autorrealização da natureza, em lugar da autorrealização da vida que somos. É a barbárie, a nova barbárie de nosso tempo, em lugar da cultura. À medida em que exclui a vida, suas prescrições e suas regulações, ela não é somente a barbárie, sob a forma extrema e mais inumana conhecida pelo humano, é a loucura. IV. IDEOLOGIAS E PRÁTICAS DA BARBÁRIE A barbárie é a doença da vida, significa que se opera uma exclusão da vida, a subjetividade e da sensibilidade. A barbárie é a autonegação da vida, de uma vida que se volta contra a vida, uma vida que se nega a si mesma. Essa barbárie possui suas ideologias, que podemos chamar de “ideologias da barbárie”, que encontram sua expressão no cientificismo, no positivismo e no objetivismo do projeto galileano. Podemos falar de duas grandes ideologias do século XX: (i) o marxismo: para o marxismo (que ignora tudo de Marx), o indivíduo deixa de ter um papel determinante e é substituído pela estrutura do regime capitalista que determina inteiramente esse indivíduo e seu trabalho; (ii) o freudismo: que mantendo o pressuposto cientificista, pensa o inconsciente como processos bioenergéticos naturais. Além das ideologias da barbárie, pode-se falar das práticas da barbárie. As práticas da barbárie são todos os modos de vida nos quais essa vida se realiza de forma grosseira, frustrada, rudimentar e inculta em oposição às atividades elaboradas da cultura. A falta de liberação de Energia nas atividades elaboradas da cultura significa seu recalcamento, o que gera o tédio. A barbárie se manifesta na mídia que emburrece e na destruição da Universidade que, ao deixar de produzir cultura, passa a servir ao projeto técnico-científico. Expulsa da sociedade pela existência técnica e midiática, e depois da própria Universidade, a cultura é rejeitada para a clandestinidade de um submundo. Será esse o fim da cultura e, com ela, da humanidade do humano?

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    Michel Henry

    Michel Henry nasceu em 10 de janeiro de 1922 em Haïphong, na Indochina Francesa (hoje Vietnã). Após a morte de seu pai, que era um oficial da marinha francesa, sua mãe e ele, então com sete anos de idade, se estabeleceram na França. Enquanto estudava em Paris, Michel Henry descobriu uma verdadeira paixão por filosofia, que o levou ao desejo de torná-la sua profissão. De junho de 1943 em diante, comprometeu-se com a Resistência Francesa. Depois da Liberação Francesa, foi aprovado no concurso para professor de Filosofia, lecionando de forma intermitente e trabalhando em diversos livros. Dedicou-se a uma tese, sob a orientação de Jean Hyppolite, Jean Wahl, Paul Ricoeur, Ferdinand Alquié e Henri Gouhier, sobre a filosofia e fenomenologia do corpo. Seu primeiro trabalho significativo publicado foi sobre a essência da manifestação, levando longos anos de pesquisa para superar a principal deficiência de toda a filosofia intelectualista: a ignorância da vida como todos experienciamos. Michel Henry manteve-se longe de modas filosóficas e de ideologias dominantes. O único assunto de sua filosofia é viver a subjetividade, ou seja, a vida real de pessoas vivas. Esse assunto é encontrado em toda a sua obra e garante sua unidade profunda, apesar da diversidade de temas abordados. Tem sido sugerido que ele propôs a teoria da subjetividade mais profunda do século XX. Entre 1960 e 1987 foi professor da Universidade de Paul Valéry em Montpellier e professor convidado da École Normale Supérieure e da Sorbonne em Paris, da Universidade Católica de Louvain, da Universidade de Washington e da Universidade de Tóquio. Foi criador de um pensamento filosófico original, denominado fenomenologia da vida. Falecido em 2002, atualmente seus arquivos filosóficos e literários estão disponíveis na Universidade Católica de Louvain.

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    Michel Henry