Chega a ser um pouco difícil montar uma sinopse; posso dizer que começamos acompanhando um escritor de meia-idade que fora convidado a um congresso sobre fracasso. No congresso, ele entra despretensiosamente numa conferência deveras estranha; um rapaz (Vilnus), que tem uma aparência idêntica a do jovem Bob Dylan, conta a história de seu (s) fracasso (os): após a repentina morte do pai, um premiado autor (Juan Lancastre), ele fica obcecado pela frase que dá título a esta resenha, - após tê-la visto em um filme escritor por F. Scott Fitzgerald. Simultaneamente, após Vilnus bater com a cabeça, pôde jurar de pés juntos que começou a receber memórias (sim, receber memórias) de seu próprio pai, do além.
Mas creio que tudo citado no parágrafo anterior possa ser considerado execrável: o livro que começamos a ler não é o mesmo que terminamos. As reviravoltas, dantescas e apoteóticas, são figurinhas carimbadas desta história; há um crescente, onde cada vez mais a trama se torna inverossímil, inacreditável (no bom sentido da palavra), única, descolada de um curso normal de acontecimentos. Criar histórias desta estirpe pode ser perigoso ao autor; apenas exímios escritores, como no caso de Enrique Vila-Matas, conseguem exprimir de forma coesa o que em-nada-é-coeso.
Pós-moderna, a leitura prende por ousar no absurdo, no surrealismo, no mistério, e não um mistério imposto, colocado de forma proposital, mas como uma névoa, uma neblina que tangencia todo o livro. O autor nos instiga a querer pagar para ver, observar até onde sua própria cabeça pode chegar; mesclando uma pancada de referências culturais (cinematográficas, plásticas, literárias) com uma narração cacofônica (há momentos em que a narração translada-se a onisciência, depois a observação, depois a Juan Lancastre [o falecido], para depois regressar ao escritor de meia-idade), julgo a leitura como um grande labirinto.
Ar de Dylan é um livro que desafia, que faz o leitor gastar bastante tempo lendo, - o que aumenta o nosso prazer. É um quebra-cabeça que, mesmo com as peças (supostamente) encaixadas, continuamos a desconfiar que a imagem criada é disforme. Não é para qualquer um.