A perplexidade do homem moderno se manifesta na teimosia de sua pergunta sobre a crise. E como tentar responder a uma pergunta tão exigente sem préviamente sabermos o que entendemos por crise? Esta velha palavra, de origem grega, (crisis), significava separação, abismo e, também, juízo, decisão, etc. Não é difícil compreender o processo semântico deste termo, que hoje assinala o mais espantoso de todos os temas que desafiam a argúcia humana. Quem tenha uma visão do mundo presa apenas ao devir, ao quaternário, como o chamavam os antigos filósofos, não poderá deixar de reconhecer que todo o existir é um separar-se, bem como todas as combinações ônticas do existir finito são sempre seletivas. Desde o exemplo do isolar-se dos gases chamados nobres, no conjunto das nossas coordenadas, até à constante seleção de todos os elementos que escolhem, preferem esta ou aquela combinação a outra, toda a atividade do existir é seletiva. Se todas as combinações são possíveis, nem todas são prováveis, e muito menos se atualizam. Há, assim, em todo o existir, um separar-se, uma crisis, um abismo. E esse aspecto, que podemos ver no mundo do existir, é patente, também, na função intelectiva. Não é "intelegir" uma palavra formada de inter lec? Lec, velho radical, que significa captar, e "intelegir", captar entre. Intelectualidade, portanto, é a funcionalidade do nosso espírito que escolhe, entre muitas notas, apenas algumas. Se aceitarmos que intelecto venha de intus e lec, como o propõe Tomás de Aquino, teríamos um captar dentro, mas um captar que será sempre seletivo, porque preferirá isto àquilo. Ainda estamos na crisis. E o grego chamava assim ao juízo, e também à decisão, porque quem decide escolhe-entre, e separa. E assim como no plano físico há seletividade, há também no biológico, no psicológico e no social. Todo existir está em crisis. E o homem é a consciência quaternária dessa crisis. Imerso no existir, imerso nela, torna-se esta a sua grande inevitabilidade, mas também a sua eterna inconformidade...
