Esse livro é decepcionante por tantos motivos que me é difícil começar...
Quando se tem em mãos algo que pode ser um documento histórico, a primeira coisa que se faz é procurar um especialista para fazer o trabalho em cima dele. Mas, ao invés de procurar um historiador, a editora britânica resolveu jogar essa bomba na mão de uma escritora ficcional. E ela age como tal.
Em nenhum momento, Shirley Harrison procura a ajuda de historiadores para tratar do período histórico discutido, na verdade há uma certa fleuma sobre isso. Um dos resultados é que o baixo orçamento que ela tem para realizar os testes necessários sobre autenticidade fez com que sejam feitos aos poucos, por poucas instituições, e só foram repetidos ao serem questionados.
A própria linha de raciocínio da escritora, para provar que o autor é mesmo o assassino Jack, parece tortuosa. Ela enche sua tese (se é que pode ser chamada disso) de noções circunstanciais, aceita coincidências como provas, e soterra o texto com noções abstratas sobre sentimentos e motivos. Em dado momento, chega a utilizar um mapa astral...
O que mais detrata essa obra é a parcialidade, contudo. Há vários pontos de interrogação, contradições e mesmo fatos que põe em dúvida a autenticidade do manuscrito ou a validade da tese - e Shirley Harrison ignora todos ao seu bel-prazer. Isso contradiz um princípio básico de historiografia: "Se os fatos não correspondem a teoria, então a teoria está errada."
Francamente, processo de pesquisa porco, malfeito, não é a toa que algumas editoras recusaram a publicação e outras decidiram usar o viés sensacionalista.
Terminei justamente por não acreditar que alguém seria capaz de deturpar tanto um trabalho tão importante. Shirley Harrison poderia ter feito algo interessante se tivesse desde o início assumido-o como uma obra literária, ao invés de tomar para si algo que não tem competência para realizar.