4/5
Acho que a melhor parte e a pior parte dessa biografia derivam dos mesmos pontos: a época em que foi escrita e a opção feita pelo autor. Vale lembrar que ele não dispunha daquele caminhão de entrevistas que foram liberadas e compactadas na época do Anthology, como o Spitz dispôs. Então, justamente, por ele optar por não escrever a história do mito - a partir dos testemunhos dos próprios integrantes - ele conta a história que é contada pelas beiradas. Ao mesmo tempo que isso abre espaço para imperfeições e invenções, abre também uma possibilidade nova de se tanger um pouco do que realmente foi a história dos Beatles, como banda. E isso eu achei fantástico. Algumas partes ficaram maçantes pra mim, como a descrição pormenorizada de contratos e negócios, mas entendo que faz parte também. Li em algum lugar que esta não era uma biografia para fãs do Paul McCartney lerem. E acho até que este comentário tem sua razão. Mas, como uma fã de Beatles muito antipática ao Paul, pude manter a cabeça um pouco mais aberta para o que li. E terminei o livro gostando mais dele do que gostava quando comecei. Nessas páginas encontrei uma dimensão totalmente diferente da imagem que eu tinha. Até concordo que o autor não é dos mais simpáticos em relação ao Paul, mas o efeito em mim foi totalmente o inverso. Acho que me aproximou de um lado mais humano, imperfeito e descontraído dele que o Spitz suprime. Fiquei bem satisfeita com o Paul desta biografia. E até o Ringo acho que foi tratado com mais respeito, como ser independente, com seu próprio jeito, etc, assim como George, um beatle normalmente subestimado, mas que tinha uma personalidade bem forte. O autor não consegue esconder sua preferência pelo John, e, com certeza, pega leve com ele nessas páginas. Mas o ponto de destaque, pra mim, foi o esforço de contextualização histórica de Philip Norman, talvez por ter vivenciado o período também - o que, aliás, me convence de que o nome escolhido para a reedição dela ("The Beatles IN THEIR GENERATION") é perfeito. Ele toma o cuidado de levar a gente pra dentro da década, descrevendo o clima econômico, cultural, e político, localizando bem não só o que os Beatles provocaram, mas principalmente a conjuntura que possibilitou o acontecimento daquele fenômeno na Inglaterra e nos Estados Unidos. Spitz tenta também fazer isso, verdade seja dita, mas ele precisa de um historiador para suas descrições mais profundas da história de Liverpool, e fica no superficial ao falar da década de 1960. Da mesma forma, foi muito bom ler em Shout! a contemporização da imagem da Yoko naquela época, e o verdadeiro significado de ser uma mulher, japonesa, e artista em 1968/69. E de sinalizar pro fato de que muito dos preconceitos daquela década ditam ainda hoje a imagem que os fãs de Beatles mais novos - como eu - acabam herdando. Como ponto fraco - e muito fraco - acho que Norman poderia ter se dedicado mais a descrever as gravações, composições e as músicas, que são, hoje em dia, o que ficou de mais importante deles. Coisa que o Spitz faz muito bem, apesar de ser parcial demais algumas vezes. Enfim, grande biografia, vale muito a pena. E eu ainda aprendi várias palavrinhas e expressões chulas novas. hahaha
