Revista Veja - Edição 2206 - 2 de março de 2011 - Sob as ruínas do tirano

    Vários

    Abril
    2011
    138 páginas
    4h 36m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Protestos no Oriente Médio fazem balançar o terceiro governo ditatorial em apenas quarenta dias. Muamar Kadafi não fará falta, mas o risco islâmico é ainda maior na Líbia do que no Egito e na Tunísia -Irmão Líder, Guia da Revolução, Rei da Cultura, Imã de todos os Imãs, Profeta dos Profetas, Pai da África e Reitor dos Governantes Árabes são alguns dos títulos que Muamar Kadafi se atribuiu. Para a história, ele passará simplesmente como um criminoso internacional da pior estirpe. Entre as inúmeras malfeitorias do ditador líbio está o financiamento de atentados no exterior e a ajuda a golpes de estado em outros países africanos. Há digitais de Kadafi espalhadas por algumas das ações mais covardes das últimas décadas, como o assassinato de atletas israelenses na Olimpíada de Munique, em 1972, a explosão de uma discoteca em Berlim frequentada por soldados americanos, em 1986, e o atentado ao avião da Pau Am sobre Lockerbie, na Escócia, em 1988. Nesses três episódios, morreram 285 pessoas. Ele fez mais. Nos anos 90, ajudou com homens e armas os golpes de estado liderados pelos sanguinários Charles Taylor, na Libéria, e Idi Amin, em Uganda. Desde 2003, paga milícias para participar do genocídio na região de Darfur, no Sudão, que matou 400 000 pessoas. Com um currículo desses, não surpreende a decisão de empregar mercenários para massacrar o seu próprio povo, na semana passada, na tentativa de impedir o inevitável: que o seu governo sucumba à fúria das ruas, como ocorreu com Zine Ben Ali, na Tunísia e Hosni Mubarak, no Egito. Estima-se que mais de 1 000 manifestantes líbios tenham sido mortos por tropas leais a Kadafi nas últimas duas semanas. A Líbia não tem exército fone, capaz de impedir que o caos se instale após a queda do governo. Por esse motivo, e pelo fato de as manifestações terem adquirido um caráter de levante armado, o risco de uma guerra civil é real - e assustador. Até poucos anos atrás, a perspectiva de que Kadafi fosse apeado do poder por sua própria população seria saudada com alegria pelo governo dos Estados Unidos e de outras nações civilizadas. Os americanos até tentaram prestar esse serviço à humanidade em 1986, em represália ao atentado em Berlim, bombardeando os palácios de Kadafi nas cidades de Trípoli e Bengasi. Desde então, o tirano passou a viver em tendas e manteve as ruínas das antigas residências como um troféu de sua rivalidade com os Estados Unidos. Durante a década de 90, a Líbia esteve sob pressão de sanções econômicas internacionais e tornou-se ainda mais isolada do resto do mundo. Aos poucos, contudo, Kadafi começou a arquitetar sua reabilitação, passando de pária dos párias ao mais bajulado dos ditadores. Uma das primeiras medidas foi entregar dois terroristas envolvidos no atentado de Lockerbie à Justiça internacional. Em 2003, comprometeu-se a destruir seu programa de armas químicas, biológicas e nucleares em um acordo com os Estados Unidos e a Inglaterra. Um ano depois, o primeiro ministro inglês Tony Blair visitou a Líbia. Na ocasião, justificou a deferência com a frase: “Isso não significa esquecer a dor do passado, mas reconhecer que é hora de seguir adiante”. Após o encontro em Trípoli, Blair anunciou que a empresa de petróleo anglo-holandesa Shell havia fechado um acordo de550 milhões de dólares para explorar gás na Líbia. O ditador passou a ser visto como um vital aliado dos Estados Unidos na guerra ao terror, aceitando receber prisioneiros da CIA para interrogatório ou fornecendo pistas sobre grupos islâmicos no norte da África. Em 2006, os Estados Unidos-retiraram o país africano da lista de estados patrocinadores do terrorismo, e, dois anos depois, foi a vez de a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, visitar Kadafi. O encontro foi um sinal de que o governo de George W. Bush via o ditador líbio como reabilitado. Há dois anos, um dos terroristas de Lockerbie, Abdelbaset al-Megrahi, foi devolvido à Líbia, segundo a Justiça inglesa por razões humanitárias: ele sofria de câncer e tinha apenas alguns meses de vida. Recebido como herói em seu país, Megrahi está vivo até hoje. A decisão provocou protestos nos Estados Unidos, o país que perdeu o maior número de vítimas no atentado. Documentos diplomáticos americanos divulgados pelo site WikiLeaks mostram que a prisão do terrorista atrapalhava os negócios entre Inglaterra e Líbia. A empresa British Petroleum reconheceu, no ano passado, ter pressionado o governo inglês para atender à exigência de Kadafi, pois temia perder um contrato de 1,4 bilhão de dólares com o país.

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