História do Pranto (Coleção Folha Literatura ibero-americana #16) -

    Alan Pauls

    Folha de S.Paulo
    2012
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788579490620
    Português Brasileiro

    Ao ver uma foto antiga, "transcorridos os anos que as ruínas do passado demandam para escorar uma ficção", o protagonista deste romance constata as flagrantes imperfeições da roupa de Super-Homem que o fazia se sentir poderoso na infância: a barra descosturada, o tecido que sobrava no peito, o espirro de leite achocolatado sobre o S mal desenhado. A imagem metafórica dá a dimensão da desconstrução tanto sutil quanto profunda que o argentino Alan Pauls, autor do celebrado O passado, promove neste primeiro volume de uma trilogia sobre a esquerda argentina nos anos 70 (os outros são História do Cabelo e o ainda inédito História do Dinheiro). Entre a hipersensibilidade e a incapacidade de chorar, entre a ideologia e a descrença, num universo povoado por personagens incômodos como o enigmático vizinho militar e o cantor de protesto que lhe causa náuseas, o protagonista deixa o narrador transportar o leitor pelo desenrolar labiríntico de sua memória. Raquel Cozer Colunista da Folha

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    Fabio Farias23/12/2009Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A construção de um testemunho

    Um livro muito bom porém de leitura não tão fácil. A princípio é complicado entender bem o que representa toda aquela situação de narrativa quebrada, cheia de colagens, lembranças cortadas, que me lembrou um pouco até alguns capítulos mais introspectivos de "Jogo da Amarelinha" do Cortázar. Mas a partir do momento que nos habituamos melhor com a perspectiva do jovem descrito, e o estilo narrativo de Pauls, as coisas fluem bem. É a história da infância e adolescência de um argentino de classe média durante os anos da ditadura militar em seu país. Por estar em "privilegiada" posição social e devido à idade, ele está de certa forma protegido da opressão, mas seu olhar precocemente crítico leva-o a reflexões e tomada de posições desde muito cedo, tornando-se um jovem de esquerda, com toda boa-vontade e confusão típicas da idade (13 anos). É interessante o modo como Pauls constrói as linhas de raciocínio do garoto, tecendo-as desde uma memória infantil que se torna causa de um conflito mental posterior até a associação pura e simples de idéias para formar um conceito. O título provavelmente vem do fato do papel essencial do pranto na história narrada. Percebe-se sempre um jogo de forças tanto nas relações familiares como nas relações pessoais e políticas, sempre permeadas por um sentimentalismo natural argentino, às vezes exagerado, que leva personagens às lágrimas. Até o ponto em que, seco como pedra, ele não consegue mais chorar, mesmo que tente. Destaque para algumas passagens como a do enjôo no elevador, o episódio da queda de Allende no Chile, e o final surpreendente do livro, além da tumultuada relação com o pai. Recomendo.

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