Nazismo/Segunda Guerra Mundial são um dos temas mais pesquisados na história, e não sem razão. Uma força política de extrema-direita que em poucos anos saiu do obscurantismo para assumir o poder em um país europeu com economia arrasada, usando de um discurso nacionalista, xenófobo e violento e que teve como principal consequência jogar o mundo no maior conflito moderno até o momento. Também foi o responsável pelo extermínio de milhões de pessoas em sistemáticos e bem organizados massacres: Judeus principalmente, mas também ciganos, homossexuais, deficientes, entre outros.
Saul Friedländer, nasceu um ano antes do nazismo chegar ao poder e teve sua história marcada por ele. Nascido em Praga na então Tchecoslováquia, este filho de judeus, sobreviveu à guerra na França dominada ao ter conseguido refúgio em um internato católico. Já seus pais, não tiveram a mesma sorte e foram dois entre milhares a perecerem nas câmeras de gás de Auschwitz. Nesta obra, ele procura esmiuçar as políticas nazistas em relação aos judeus e as consequências dessas políticas para a vida tanto dos judeus quanto dos Arianos.
A primeira coisa que se nota claramente é que a política nazista não foi, nem de longe, algo voltado para o extermínio desde o início. Suas medidas iam e vinham de acordo com a opinião pública alemã e principalmente a opinião internacional. Os nazistas o tempo todo testavam até onde podiam ir, muitas vezes voltando atrás enquanto aos poucos incentivavam um forte sentimento antissemita em toda a população, ao invés de apenas nos já convertidos. Por muito tempo, o pensamento principal era a expulsão total dos judeus da Alemanha, embora essa ideia tivesse dois contratempos: 1º o medo de que os judeus se organizassem num país estrangeiro e continuassem com o grande plano de dominação mundial que muitas teorias da conspiração da época os acusava (Hitler associava os judeus ao Bolcheviques que haviam provocado a Revolução Russa e criado o primeiro Estado dito socialista do mundo e tinha convicção de que o plano final dos judeus era a revolução mundial e o fim das nações e do capitalismo); e 2º o fato de que os nenhum país parecia disposto a aceitar os judeus alemães sem pelo menos recebessem uma compensação financeira para receber o problema.
Em outras palavras, se a ideia inicial era de tornar a vida na Alemanha tão insustentável que nenhum judeu quisesse continuar a viver ali e se vissem obrigados a se mudar, aos poucos foi se convertendo em violência. A princípio, localizada e esporádica, sem o incentivo do Estado, embora com o seu apoio implícito. E a medida que o governo nazista percebia que as demais potências fingiam que não viam o que acontecia, ou no máximo faziam declarações condenatórias sem maiores consequências e que a população alemã ou aceitava a violência imposta a seus vizinhos e antigos amigos ou pelo menos não se manifestava contra ela, essa violência e perseguição foi tornando-se cada vez mais transparente até explodir na infame Kristallnacht (Noite dos Cristais, em novembro de 1938), em que algumas dezenas de pessoas foram mortas e milhares foram feridas, desabrigadas e tiveram suas casas e sinagogas queimadas enquanto as forças policiais e de bombeiros agiam apenas quando o fogo pudesse afetar algum prédio ou espaço alemão, deixando os judeus à própria sorte.
Se há uma coisa que este livro mostra é justamente que forças como o nazismo não surgem do dia para a noite. Elas vão se alimentando pelas beiradas das civilizações, crescendo aos poucos e consumindo tudo a sua volta com sua retórica violenta. Durante a década de 1930, o Hitler e os nazistas só perduraram pois lhes foi permitido isso. A cada agressão contra os judeus internamente era recebida com aprovação, ou pelo menos sem condenação, pelo povo alemão. Já as agressões externas não provocaram maiores retaliações do que notas de repúdio vindo de potências como a França, Inglaterra e Estados Unidos. E a cada ação sem consequência, mais força o nazismo ganhava e mais alemães se viam infectados por eles.
As consequências dessa inação ficaram conhecida na histórica como Holocausto e II Guerra Mundial. Dois eventos que talvez não tivessem acontecidos (pelo menos não na profundidade como ocorreram) se as potências mundiais na época tivessem agido ao invés de fingir que nada estava acontecendo. E se os alemães não se tivessem se rendido a um discurso oriundo de violência e ódio.
Uma frase bastante conhecida, atribuída a Edmund Burke é que Para que o mal triunfe basta que os bons não façam nada. O nazismo talvez seja o maior exemplo dessa ideia e deveria servir como um exemplo ao mundo, para evitar que algo similar voltasse a ocorrer. Embora olhando para o mundo atual, onde o extremismo voltou a crescer nos últimos anos e populistas de extrema direita voltaram ao poder com discursos similares, parece que a lição não durou muito tempo.