The Three Stigmata of Palmer Eldritch - Four Novels of The 1960s

    Philip K. Dick

    Library of America
    2007
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9781598530094
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    Bruno Alves da Silva17/04/2014Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Este é um dos livros considerados mais clássicos de Philip K. Dick (junto com <i>Androides sonham com ovelhas elétricas?</i> e <i>O homem do castelo alto</i>), e foi lançado aqui no Brasil pela editora Aleph como <b>Os três estigmas de Palmer Eldritch</b>. É uma experiência de leitura fluente, que me remeteu a outro livro do autor, <i>Ubik</i>, por alguns elementos no enredo e pela experiência de leitura. Ambas me animaram mas me deixaram pensativo, ambas trabalham principalmente as diferenças entre a realidade, o simulacro, e nossas percepções. Entretanto, são livros diferentes, com temáticas diferentes, e <b>Palmer Eldritch</b> é um de seus primeiros a explorar a temática religiosa cristã. Em um mundo extremamente quente, onde as pessoas vivem com ar condicionado e não podem ficar muito tempo expostas ao sol (não muito diferente do Rio de Janeiro de 2010), o planeta está quase superpopuloso e o governo terrestre manda pessoas para emigração compulsória aos outros planetas do sistema solar. Os colonos devem viver em barracos apertados e sem muita privacidade, e o único alívio que encontram para seu suplício é a droga Can-D, que faz com que sejam “traduzidos” e tenham suas consciências transportadas para uma casa de bonecas. Incorporam o “layout” da casa de bonecas e podem, por um tempo indeterminado, viver a vida ideal, de volta a uma Terra agradável e se esquecendo das preocupações do mundo. Neste contexto aparece Palmer Eldritch, um antigo executivo que está de volta de uma viagem de dez anos ao sistema estelar vizinho, Proxima. E ele traz uma nova versão da droga, Chew-Z que, além de ser legalmente sancionada e ter um preço menor, supostamente trará uma sensação diferente: você será transportado para um mundo novo, mas similar, como um simulador do pós-morte ou uma ressurreição. Acompanhamos a história de alguns personagens relacionados de perto ao dilema: Leo Bulero, diretor da empresa Perky PatLayouts, que constrói os “cenários” para os quais Can-D leva os colonos, onde tudo é minimizado. Barney Mayerson, precog de Nova York, com o poder psíquico de prever o que se tornará moda no futuro ou não, e assim escolher o que será “minimizado” para os layouts; entre outros. <i>It takes a certain amount of courage, he thought, to face yourself and say with candor, I’m rotten. I’ve done evil and I will again. It was no accident; it emanated from the true, authentic me. (p. 92)</i> <b>Palmer Eldritch</b> é conhecido por ser o livro da LSD por excelência. Durante diversos trechos, tanto os personagnens quanto o leitor, limitado à perspectiva dos personagens sobre os acontecimentos, terão dúvidas sobre o que é realidade, o que é alucinação – e se as alucinações, a “viagem” dos personagens, não tem algo a mais. As viagens do Can-D são bem centradas e fáceis de se perceber: estamos nos layouts da Perky Pat, temos os personagens bem delimitados. Entretanto, Chew-Z nos leva ao mundo de Palmer Eldritch, onde o executivo manda e desmanda como Deus. Sob os efeitos da última droga, passamos a perceber o mundo de outra forma; será que estamos tendo uma mera experiência de alucinação ou um contato com algo mais grandioso? Similar a uma experiência religiosa, e comparado a tal pontualmente, principalmente mais próximo ao fim do livro. <i>Below lay the tomb world, the immutable cause-and-effect world of the demonic. At median extended the layer of the human, but at any instant a man could plunge – descend as if sinking – into the hall-layer beneath. Or: he could ascend to the ethereal world above, which constituted the third of the trinary layers. Always, in his middle level of the human, a man risked the sinking. And yet the possibilty of ascend lay before him. [...] Hell and heaven, not after death but now! (p. 60)</i> Diálogos sobre ontologia, a natureza de Deus e das experiências religiosas, as definições de um inferno, e a sua pessoalidade ou não, são elementos mais místicos que começam a habitar o romance. Já podemos ver um foreshadowing para os temas que mais tarde se tornarão livros como <i>VALIS</i> ou <i>The Divine Invasion</i>. Entretanto, este livro ainda se diferencia deles em sua maior leveza. O conteúdo filosófico é diluído e fácil de mastigar. A leitura do livro não é difícil, apesar da paranoia: Se o que estamos lendo agora é mais uma alucinação, parte da experiência de Chew-Z; se Chew-Z causa alucinações ou algo diferent; se Palmer Eldritch está por perto, se é onisciente, e sobre quem afinal é Palmer Eldritch. Talvez manter algumas questões durante a história confundam a cabeça do leitor, principalmente a respeito da natureza da experiência da droga, que de tempos em tempos recebe uma nova definição. Não obstante, este está mais para livros como <i>Ubik</i> e <i>O homem do castelo alto</i> do que está para <i>VALIS</i> em quesito fluidez da experiência. Infelizmente não tenho como explorar um pouco mais os temas da história sem dar spoilers que possam acabar com a surpresa em potencial de alguém. Então abro um parênteses aqui: _____________ ABAIXO COMEÇAM OS SPOILERS. Continuando a ler? É sempre bom ter a experiência completa. O estado de Palmer Eldritch como figura quase-Deus fomenta o diálogo ontológico no final da história, entre a neo-cristã Anne Hawthorne e Barney Mayerson, já morando como colonos em Marte tentando fazer deste planeta um lugar melhor. Quem sabe, construir uma vida. Vemos mais uma vez o elemento potencialmente religioso na criatura que possuiu o corpo de Palmer: algo mais velho do que qualquer humano possa imaginar; simplesmente não temos a perspectiva necessária. Lembra um pouco os horrores cósmicos de Lovecraft,e talvez daí venha o “Eldritch” de seu nome, na intenção do autor. <i>Maybe that’s the source of its knowledge: not experience but unending solitary brooding. (p. 172)</i> Os pensamentos de Barney são dignos de nota: e se Deus, existindo, não do jeito que imaginamos e de um jeito que não temos como compreender completamente, tentasse fazer este contato? Ele quer nos ajudar, assim como tentou ajudar a Mayerson, e inclusive o poupou no final, mas não entende muito bem como o fazer? No final, ele tem a ideia de se tornar cada pessoa em Marte; possuir e guiar uma civilização, como uma mente coletiva, um inconsciente (ou consciente) popular. Mas, mesmo assim, muda de ideia na última hora e poupa a vida de um ser humano, por mais insignificante que ele fosse. Mas Hawthorne dá outra interpretação: ele pode ser uma criatura, não o Criador. Se Deus é onipotente, a Coisa-em-Eldritch seria não mais que uma criatura infinitamente superior à humana, talvez mais próxima do divino, mas ainda não completamente lá. E talvez ela possa servir como um intermediário, mesmo com seu plano não dando certo. E o que acontecerá quando o corpo terreno de Eldritch ser dizimado pelos raios da nave de Leo? Não temos como saber. Mas aquela criatura tocou a muitos – deixou um pedaço de si com eles. A Coisa-em-Palmer disse que sua marca irá desaparecer com o tempo. Mas seus três estigmas mostram aqueles que talvez nem tenham experimentado o Chew-Z; o processo estava começando. O processo pelo qual a Criatura tomaria posse de todos, e quem sabe o que ela faria? Não parecia malevolente, apsar de sua ambição e a enganação. Não tinha um aspecto malicioso. As poucas páginas que passamos dentro de sua cabeça nos mostra – estava solitário. Depois de eons sozinho, vagando pelo vácuo infinito. Talvez seu plano de assimilar a raça humana, seu único “método de reprodução”, fosse apenas uma maneira de compensar a solidão por um tempo indizível. E quem mais acompanhado do que um consciente coletivo?

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