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    A Morte Feliz -

    Albert Camus

    Record
    1971
    147 páginas
    4h 54m
    ISBN-10: 8501015199
    Português Brasileiro
    3.9
    612 avaliações
    Leram1025Lendo93Querem1301Relendo3Abandonos26Resenhas76
    Favoritos25Desejados1301Avaliaram612

    Albert Camus é escritor que concentra em cada um de seus livros a totalidade de temas, obsessões e imagens que percorrem o conjunto de sua obra. Por isso, a edição de A Morte Feliz, romance que Camus preferiu não publicar em vida, é essencial para se compreender a poética e o pensamento do autor de A Peste e O Mito de Sísifo. A Morte Feliz é uma espécie de preâmbulo de O Estrangeiro (de 1942).

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    kam ! picture
    kam !22/02/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    à morte feliz: a busca incessante pela liberdade e pelo sentido da vida.

    Camus se tornou um dos meus escritores favoritos, e isso não se deve apenas às suas ideias, mas à forma como ele aborda até as coisas mais banais de maneira majestosa. ele transforma a monotonia da vida em algo quase hipnotizante, onde cada detalhe, por menor que seja, carrega um peso existencial. ler camus é ser sugada para um mundo de introspecção profunda, onde até o gesto mais simples parece estar carregado de um significado maior. se ele tivesse escrito apenas sobre a rotina besta de alguém, eu teria lido até o fim, terminando a leitura questionando até a forma como preparo o meu chá. e à morte feliz não é exceção. o livro me envolveu pela transformação de mersault, pela forma como sua trajetória se desenrola de maneira lenta e, ao mesmo tempo, cheia de sentimentos contidos. a primeira parte da história é marcada pela insatisfação, pela sensação de aprisionamento e pelo desejo quase obsessivo de felicidade. mersault, um homem que parece à deriva em sua própria vida, encontra em zagreus uma espécie de resposta para suas inquietações. zagreus, um homem que, apesar de sua riqueza, vive limitado por uma deficiência, desperta em mersault uma ideia: a felicidade plena requer liberdade, e essa liberdade só é possível se ele tiver controle sobre seu tempo. o que acontece a partir daí é um ponto de virada crucial, mas deixo a curiosidade de quem ainda não leu descobrir a profundidade desse ato e suas consequências. com esse acontecimento, a história muda. na segunda parte, mersault se afasta de sua antiga vida, rompe com marthe e parte em busca da felicidade que tanto almejava. ele se refugia na natureza, experimenta o prazer da solidão e se entrega a uma existência contemplativa. no entanto, a liberdade que ele tanto desejava não se traduz em uma felicidade plena. a própria ideia de felicidade se torna um conceito escorregadio, algo que ele persegue, mas nunca consegue agarrar completamente. a segunda parte do livro é quase etérea, mergulhando profundamente na experiência interior do protagonista, em sua relação com o tempo, com o corpo e com o mundo ao seu redor. é uma mudança drástica em relação ao início, onde tudo parecia mais concreto e mundano. em muitos aspectos, à morte feliz me lembrou o estrangeiro. ambos os livros trazem protagonistas chamados mersault, ambos seguem a jornada de um homem que parece deslocado do mundo, e ambos exploram a relação entre morte e felicidade. no entanto, enquanto o mersault de o estrangeiro parece indiferente ao próprio destino, o mersault de à morte feliz tem uma busca ativa por sentido. ele age, ele tenta moldar sua vida de acordo com sua própria vontade, e essa tentativa, por mais controversa que seja, o torna um personagem fascinante. o fato de mersault buscar algo profundamente transformador em sua vida sublinha ainda mais o tom existencialista do livro. ele não é um homem guiado por uma moral convencional, e sua busca pela felicidade, ao invés de ser uma busca interior, se torna uma busca por controlar o que ele julga ser o seu destino. e isso me faz refletir sobre as escolhas que fazemos, sobre até onde vamos para alcançar algo que imaginamos ser a felicidade. um dos aspectos mais marcantes é o fato de mersault não se arrepender de suas ações. ao longo da narrativa, ele nunca demonstra remorso por suas escolhas ou pelos impactos que elas causaram. essa falta de arrependimento, em meio a uma sociedade que espera essa reação, destaca ainda mais a desconexão de mersault com as normas sociais e com a ideia tradicional de moralidade. em vez de se render à culpa ou ao pesar, ele encara sua vida e suas escolhas com uma indiferença quase desconcertante. mersault não busca justificativas para o que fez; ele simplesmente vive com as consequências de suas ações, como se estas fossem apenas mais um reflexo de sua condição humana. esse comportamento desafia a noção convencional de moralidade e nos leva a refletir sobre o peso real que colocamos sobre o arrependimento e a responsabilidade. a relação com marthe também é um ponto interessante. o rompimento com ela não é apenas o fim de um relacionamento, mas sim um afastamento de sua antiga vida, daquilo que ele acreditava ser o seu caminho para a felicidade. ao se afastar, mersault se entrega à busca de um sentido maior, mas, por mais que ele tente, a felicidade não parece estar ao seu alcance. essa busca incansável pela felicidade, que se transforma em uma busca por controle, é o que torna mersault tão fascinante e tão trágico ao mesmo tempo. um dos aspectos mais marcantes de à morte feliz é o fato de mersault não se arrepender de suas ações. ao longo da narrativa, ele nunca demonstra remorso por suas escolhas ou pelos impactos que elas causaram. essa falta de arrependimento, em meio a uma sociedade que espera essa reação, destaca ainda mais a desconexão de mersault com as normas sociais e com a ideia tradicional de moralidade. em vez de se render à culpa ou ao pesar, ele encara sua vida e suas escolhas com uma indiferença quase desconcertante. isso é uma manifestação clara da visão existencialista de camus, onde a vida não precisa ser redimida por arrependimentos ou busca por um sentido maior imposto por convenções. mersault não busca justificativas para o que fez; ele simplesmente vive com as consequências de suas ações, como se estas fossem apenas mais um reflexo de sua condição humana. esse comportamento desafia a noção convencional de moralidade e nos leva a refletir sobre o peso real que colocamos sobre o arrependimento e a responsabilidade. o final de à morte feliz é um retrato da profunda ironia existencial que camus tão brilhantemente explora ao longo do livro. mersault, ao buscar incessantemente pela felicidade por meio da liberdade, descobre, de maneira crua e dolorosa, que a busca por controle sobre sua vida não traz a plenitude que ele imaginava. sua tentativa de escapar da trivialidade e do vazio existencial através de uma ruptura com o passado e uma busca por significado na solidão apenas intensifica a sensação de impotência diante de sua própria existência. nesse final, camus nos apresenta uma reflexão pungente sobre a busca pela felicidade: a ilusão de que ela pode ser conquistada, controlada ou moldada à vontade. a verdadeira liberdade, para mersault, acaba sendo uma prisão que o mantém cada vez mais afastado da paz que tanto desejava. o conceito de inferno em à morte feliz não se trata de um lugar físico, mas de uma condição psicológica e existencial que mersault vive, um estado de constante desconforto, vazio e ausência de significado. ele não é atormentado por chamas, mas por sua incapacidade de se libertar da busca insaciável por um sentido maior. esse 'inferno' íntimo é o verdadeiro tormento de mersault, um inferno que ele mesmo constrói, sem perceber que sua busca pela felicidade o priva de alcançá-la. isso faz com que a busca pela felicidade se torne uma jornada infinita, sem destino, e nos leva a questionar: até que ponto estamos todos, de alguma forma, presos a essa busca insaciável, e o quanto ela realmente nos define? em suma, esse livro me deixou com uma sensação de melancolia e vazio, mas de uma forma que só camus consegue fazer: transformando a busca pela felicidade em algo maior do que simplesmente uma realização pessoal. é uma reflexão profunda sobre a vida, a morte e as escolhas que fazemos. a escrita de camus é arrastada, monótona para muitos, mas para mim, essa monotonia é tão bem construída, tão cheia de sentimentos, que se torna um prazer ler. eu amo livros que extraem significados das pequenas coisas, que transformam a vida cotidiana em algo digno de contemplação. à morte feliz faz exatamente isso. camus não é um autor que eu recomendaria para todos, porque seu estilo e suas temáticas exigem paciência e disposição para mergulhar em uma atmosfera densa. mas para quem gosta de histórias melancólicas, onde cada palavra parece carregada de um peso existencial, esse livro é uma experiência única.

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    3.9 / 612
    • 5 estrelas25%
    • 4 estrelas37%
    • 3 estrelas29%
    • 2 estrelas8%
    • 1 estrelas1%
    Albert Camus profile picture

    Albert Camus

    Foi um escritor e filósofo francês nascido na Argélia, vencedor do Prêmio Nobel de literatura de 1957. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Seus temas destacam o isolamento do homem em ambientes estranhos, o absurdo da vida e do universo e o exame da moral e da condição humana.

    120 Livros
    1.304 Seguidores
    El Taref, Argélia

    Albert Camus