Kundera em seu livro sobre o romance disse que não gostava que houvesse interpretação bibliográfica de uma obra. Contudo quando se trata de seus livros, é difícil não lembrar que ele é um exilado. A Ignorância é um livro que trata sobre a volta de dois exilados para o seu país após o fim do comunismo. Ninguém que passe por essa situação pode compreender totalmente o que Kundera fala, é como um europeu ler um livro sobre a constante insegurança de um carioca, ou um rico ler sobre a sensação de fome. Pode sentir e até compreender, mas nunca será de uma forma plena. Talvez isso faça qualquer um, me incluindo obviamente, a nunca compreender totalmente o que acontece nas páginas daquele livro.
Obviamente que isso não faz perder a beleza que há no livro.Acompanhamos Irena, que morava vinte anos na França, e Josef, que casou na Dinamarca, de volta a Boêmia (como Kundera prefere chamar a República Tcheca). A sensação de não pertencimento a aquele lugar permeia a volta dos dois, que se conheceram brevemente no passado. É de se esperar que essa sensação seja estranha, afinal aquele é o país deles, mas logo Kundera mostra que isso não é natural. Como um hábito clássico do autor, ele vai explicar o que significa nostalgia, e a partir disso como esse sentimento é valorizado desde Homero, quando escreveu Odisséia. Novamente, não há como não lembrar que Kundera vira um cidadão francês após se exilar. Mas ao mesmo tempo em que há nos personagens um sentimento de não entender por que todos querem que eles voltem, eles sentem uma familiaridade com a língua, com a região e tudo traz lembrança do que abandonaram.
Irena, que volta com o seu amante Gustaf que deseja permanecer no país, não se sente bem ali. Seus complexos com relação a mãe voltam, as amigas não se interessam pelo que aconteceu com ela nesse tempo e percebe como a sua relação com Gustaf está desgastada. Já Josef, que está viúvo, só passa pelo país por dias para rever a família e um amigo, que o ajudou a fugir. Embora os personagens tenham suas diferenças durante a passagem pelo país, algo acompanha os dois: o desinteresse dos outros no que aconteceu a eles enquanto estiveram fora. Todos querem contar o que aconteceu enquanto estiveram longe, de conhecidos ou de certo local. Contudo suas experiências são postas de longe, por que após competir para ver quem sofreu mais preferem ignorar o passado. Isso é extremamente real, quantos falavam sobre a época de exílio dos artistas brasileiros na ditadura? Um período que é considerado vergonhoso, é ignorado. Na doce ilusão de que podendo ignorar o passado, o evento não aconteceu realmente.
Definitivamente o que mais me fascinou foi o capítulo 35, no qual ele fala sobre a memória. É fácil saber o porquê quando se sabe que minha monografia trata sobre a memória histórica então ver esse assunto em um dos meus autores favoritos é como natal (o que não é uma boa comemoração sendo que eu não ligo para a data, mas deixa para lá). Mas o que mais me atraiu sobre o assunto na abordagem desse livro foi quando ele fala que mantemos nossas relações em memórias diferentes. A memória que você guarda sobre uma pessoa não é a mesma que ela guarda sobre você. Também a importância que você dá não é a mesma que outro pode dar. Creio que as interpretações que cada um fazem sobre os acontecimentos é o que leva a cada um ser único.
- - - - - - -
http://depoisdaultimapagina.wordpress.com/