Respire fundo e mergulhe de cabeça no primeiro parágrafo. Andrea Camilleri é dono de uma escrita vertiginosa, sem embromações, em que duas ou três páginas são suficientes para muita coisa acontecer.
É bem provável que sua habilidade para contar histórias tão cheias de ação, com tal encadeamento caudaloso de cenas originais, tenha sido reforçada a partir do trabalho como diretor, dramaturgo e roteirista de televisão. Seu ritmo literário ganhou celeridade graças à herança de ofício adquirida na prática da linguagem audiovisual.
Nascido em 1925, Camilleri estreou como romancista tardiamente, em 1978. Só foi adquirir notoriedade em 1994, quando publicou A forma da água, primeira da série de novelas policiais protagonizadas pelo impagável comissário Salvo Montalbano. Sem a mínima campanha publicitária, contando apenas com o fenômeno do "boca-a-boca", os pequenos casos de Camilleri rapidamente alcançaram enorme sucesso, arrebatando não só o público italiano, como o resto do mundo. Premiadíssimos, chegaram à casa dos 3 milhões de exemplares vendidos.
A imaginária cidade de Vigàta - que o escritor admite ser uma reprodução de sua terra natal, Porto Empedocle oferece seus cenários a romances policiais, ou então recua no tempo, para ser palco da História ou de reminiscências autobiográficas.
Após o final dos anos 90, o autor retoma seu caminho como ficcionista histórico. O Rei de Girgenti (2001) inscreve-se nesta nova fase de sua carreira. Em grande parte fantasia, o enredo inspira-se em fatos verídicos da vida de um líder popular que realmente existiu: Zósimo, um jovem e inteligente camponês que aprendeu a falar aos 3 meses de idade, filho de Filônia e Gisuè, experimentou intensamente a graça, a tragédia e a glória. Cultivado nos livros que lera entre secas e pestes, indignado com a fome e a injustiça, expulsou os governantes de Montelusa (que então passou a se chamar Girgenti, hoje Agriento), proclamou-se e foi aclamado rei de sua cidade em 1718.
O Renascimento já iluminava o mundo, mas a pequena região da Sicília vivia como se ainda estivesse na Idade Média. Assumida a sua responsabilidade de governante, Zósimo aboliu a nobreza feudal, ridicularizou o alto clero e a Inquisição, distribuiu terras e, sempre tocado por um grave sentimento de culpa, degolou funcionários e autoridades. O povo de Montelusa abraçou as chamadas leis de Zósimo, com sua opção por uma desigualdade discreta, desde que alcançada uma proporção mais prudente entre pobreza e riqueza'. Contudo, a frágil monarquia camponesa durou poucos dias. Seu líder acabou enforcado nos percalços de uma contra-revolução.
Embora o romance mantenha o mesmo andamento vigoroso presente nas aventuras do comissário Montalbano, sua exuberância narrativa não deve ser traduzida como falta de profundidade. Enquanto saboreia o habilidoso emprego de arcaísmos e de um léxico rural reinventado, o espírito do leitor é transposto, a cada nova circunstância, para o ambiente e os costumes da época, afigurando-se os contornos sociais de um campesinato espremido entre o clero e a nobreza feudal. A realidade amarga é, por vezes, tingida com as tonalidades irônicas da fantasia e do sobrenatural. Camilleri toma as rédeas do absurdo para explicar as agruras cotidianas daqueles tempos. O fim do romance é um exemplo típico desse contexto: parece banhar-se nos fluidos mágicos do realismo fantástico.
Por sua vez, várias passagens da história são pontuadas por um humor que remete à simplicidade grotesca daquele período, beirando o escatológico, mas repleto de sutilidades. A morte, presença constante que inflama os sonhos do protagonista, é tratada com lirismo e doçura - especialmente quando os amores ou os ideais envolvidos são os maiores de sua jornada - e a lâmina de sua foice implacável reflete, como um espelho, os conflitos sociais de um passado áspero e opressivo.
Como concluir esta resenha? Para fazer jus ao livro, é melhor que seja sem delongas. Resumindo, gostei do que li. Camilleri é um mestre. O Rei de Girgenti garante prazer do início ao fim.