“ESTÁ TUDO BEM, QUERIDO?” - Ricardo Morales, Dublinense, 110 páginas
Nas cento e dez páginas do livro se encontram dezesseis contos: curtos e de leitura rápida. Em todos, os personagens tem o mesmo nome. Sendo o marido desconfiado, o desempregado, o apático diante de um casamento desgastado, o menino que se inicia sexualmente, o doido que se sente preso entre as paredes do hospital - lá está ele: o Morales!
O primeiro dos contos - Cilada Mortal - fala das tentativas de um filho contra o pai. Como todas elas são infrutíferas, o pai, incapaz de cair nas ciladas mortais que se lhe prepara (o filho/a vida) sai pelas páginas, constituindo-se, também, como linguagem, se fragmentando em diversos (personagens) para se constituir um (o autor). Achei muito coerente e inovadora essa construção, como se as partes – contos - formasse um corpo - o livro que, nesse sentido, é mais do que um conjunto de contos, já que estão costurados entre si, pelo personagem que perpassa todos eles!
No posfácio - a que chama, muito apropriadamente de "Anagrama" - o autor se confessa um Jack Sparrow da literatura, saqueando ideias e palavras de Hemingway, Cortázar, Bioy Casares, Sabato e, um nome completamente novo para mim, o de Raymond Carver (que pretendo conhecer!)
Além dessa pilhagem, continua ele e concordo eu, Morales funde estilos e encontra, via este "Está tudo bem, querido?", o seu próprio : o estilo seco, enxuto, que testemunha o homem moderno, perdido e emparedado entre os outros e para o qual, ou ‘quais’, NÃO está "tudo bem". Ele se junta a Carlos Nejar nessa
ADVERTÊNCIA
"Nada sou, nada tenho,
senão o que me exime
do veneno (...)
Assim resisto
Vivo explosivo, áspero
mas vivo
E sou o meu próprio alvo (...)
O que sou
é dar socos
contra facas cotidianas
E é pouco.
In: Danações