50 Poemas escolhidos pelo autor -

    Anderson Braga Horta

    Edições Galo Branco
    2003
    116 páginas
    3h 52m
    ISBN-11: 85866276480
    Português Brasileiro

    Os melhores 50 poemas do poeta mineiro radicado em Brasília: Anderson Braga Horta.

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    Thiago picture
    Thiago04/06/2024Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Como que se diz? "É bom para passar o tempo"

    A presente coletânea é dividida tematicamente em cinco núcleos, cada um contendo um assunto diferente, sendo trabalhado ao sabor de cada poema individual. Como a forma acaba divergindo demasiadamente entre núcleos, sendo ora classicista, ora arcadista, ora livre e assim por diante, decidi tratar separadamente os "capítulos", por assim dizer. Não obstante, passemos ao que interessa. 1. Erótica Tranquilamente a parte mais fraca e irritadiça da coletânea, Erótica é o sonho meloso de um parnasiano enrustido sob uma túnica arcaica de cega admiração, procurando imitar os grandes poetas de outrora. Decerto, quando iniciei a leitura já franzi o sobrolho, acreditando que estaria às voltas com um livro ridículo, defasado já no berço, datado no despontar da aurora. Que se queira escrever temas clássicos envoltos por clássicas formas, vá lá, mas repetir ponto por ponto é de um anacronismo sem igual. Seriam aceitáveis se fossem tentativas de principiante, uma espécie de estudo e prática. Agora publicar? Francamente, não dá. Não que sejam poemas ruins per se; porém, não possuem qualquer tipo de profundidade ou inventividade, são sensaborias que até agradariam se admitissem algum ar jocoso. Pelo contrário, Anderson Braga Horta parece levar a coisa toda muito a sério, para o pesar da sua obra. Ademais, essa descrição heteronormativa do sexo, da beleza, do prazer chegam a causar vergonha alheia. 2. Eus Aqui o clima melhora um pouco, com poemas mais aptos a despertar alguma fagulha no leitor. São entupidos de autopiedade e simulada angústia, assim como uma modéstia incômoda e insossa, mas ao menos são melhor construídos, possuem uma sonoridade mais acentuada, evocam imagens curiosas, novas, algumas são mesmo impressionantes (conferir "Escorpião", poema de estrela maior). A poética de si para lidar com os problemas da vida já é mote antigo da tradição; no entanto, neste caso o autor colore o bastante para que não fique monótono, conquistando o mínimo de curiosade para que o leitor siga sendo conduzido por seus versos. Vejamos onde isso irá desembocar. 3. Círculo de Família Dado o título da coletânea, eu realmente duvido que essa leva de poemas constam com plena sinceridade no rol das elevadas produções de Anderson Braga; sendo, antes, parece-me, uma tentativa de homenagem em praça pública a algumas pessoas queridas de sua vida. E tudo bem, acho comovente. Agora, dizer que são os melhores ou excepcionais? Só se o corpus inteiro do autor for mediano para baixo. Pois trata-se de poemas laudatórios, íntimos, com linguagem e modelo simples. Agradam, sem dúvidas, e podem mesmo encher uma tarde ociosa, mas certamente não irão laurear o restante. Não sou exatamente contra a inclusão, só os acho um tanto insípidos, indiferentes. A vantagem é serem melhores que os anteriores (excetuando-se alguns), demonstrando com clareza como a simplicidade é a qualidade maior de Braga Horta. 4. Ser com os outros De cunho político-social-metafísico, é este o ponto culminante, o auge, do apanhado. O salto é enorme, a poesia ganha novos ares, mais puros, mais prazerosos. Foi neste ponto que enfim encontrei algo mais do que mero entretenimento banal, e Anderson provou-se excelente no uso do livre versejar. Seu conhecimento de filosofia da história é meio lugar comum, imbuído de um cristianismo re-espiritualizado, mas essa síntese conceitual gera estrofes brilhantes, emoções carregadas - ainda que carreguem sem saber a marca do privilégio -, imagens cintilantes mesmo no uso de conceitos filosóficos, nomes comuns com letras maiúsculas e outros recursos nos quais são complicados no trato efetivo. Chamo atenção para "A Morte do Homem", sobretudo a quinta parte intitulada "Notícia". O modernismo entrou em peso neste, criando um poema visual (isto é, que só pode ser lido e não declamado) agora sim atual, moderno, portador de algo mais pujante do que contemplação afetada do passado. A linguagem da escritura é abraçada, refeita nas linhas redutivistas da poesia, na qual aparenta sempre fazer de seus objetos produtos arcaicos, natimortos. Anderson Braga prova que isto não é o caso, que a poesia tem sim lugar no mundo contemporâneo. Uma pena logo depois ele abandonar o próprio brilho. 5. Limiares Por fim, talhamos o político e o social para ficarmos com o metafísico. Com Drummond funcionava, visto que ele fazia filosofia e não mera metafísica. Com Braga Horta, por sua vez, ficamos com a superfície, a camada simplista de uma filosofia do tempo entendida à maneira vaga de quem lê Kant, Hegel, Benjamin, Adorno, entre outros, sem muito cuidado estrutural. O término ainda é de bom tom, milhas à frente das três primeiras partes; entretanto, peca por ser a sequência de um núcleo forte, potente, pelo menos mais forte e mais potente que todo o resto. Enfim, são poemas adoráveis, auto-reflexivos no tocante à natureza do universo, de Deus, do ser e do nada. Não valem muito a reflexão do leitor, mas podem ser lidos com algum grau hermenêutico mais aguçado, diferente, por exemplo, da Erótica cujo conteúdo e forma eram de uma futilidade sem igual. Terminamos bem, feito alguém que se deita nas areias da praia para acompanhar o sol poente. E no entanto poderíamos haver terminado melhor. Por agora, esta coletânea fica aqui, sem muita relevância, mesmo quando preenche os entremeios de outras leituras. Quiçá seja essa sua utilidade, mesmo: preencher o tempo modorrento da existência moderna. E ainda exigem mais?

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