As três narrativas que compõem Os nomes são singulares e, ao mesmo tempo, miméticas.
Em Para onde foram as crianças?, Bortolotto lança a agudeza de sua prosa encharcada de poesia sobre um evento de aparência banal: uma personagem de vida regrada e previsível encontra uma bolsa esquecida em uma praça e a leva consigo para casa, a fim de devolver à dona. Porém, esse acontecimento faz com que a personagem experimente um inesperado rasgo na tessitura do dia-a-dia: ao mexer nos pertences ali contidos e vislumbrar o rosto de sua dona através da fotografia do documento de identidade, instala-se, em seu espírito, uma verdadeira obsessão em torno daquela mulher – Lígia –, uma torrente de fantasias sobre sua aparência, seus gostos, sua vida passada e sobre a (im)probabilidade de um futuro comum. A busca da personagem protagonista pela construção mental dessa realidade paralela, a realidade em que Lígia lhe habitaria a vida, surge como tentativa desesperada de transcender uma existência tranquila, talvez até feliz, mas carente de onirismo e pulsões. As horas em que Lígia permanece a seu lado esgarçam-se sob a força do delírio, preenchendo-se com as miudezas repletas de enlevo que constituem uma vida a dois e mitigando assim o isolamento psíquico dessa personagem vinda de uma “família de pessoas solitárias”, como se o imperativo do acaso fosse capaz de vencer a herança de uma aridez existencial.
O protagonista de Corre senão Jesus pega, carente não apenas de um nome mas também de identidade, perambula entre o consultório de sua psicóloga (onde já experimenta o esgotamento das tentativas de se encontrar), o restaurante que ultimamente tem frequentado (onde se anuncia uma possível amizade com aquele rapaz de maxilar com formato estranho) e as ruas incertas que percorre no regrado treino de corridas que se impõe. E é nessas ruas que, de modo recorrente, vê-se acossado por um perseguidor tão obstinado quanto improvável, que vem a personificar a profunda inadequação do protagonista: o sentir-se alheio ao lar em que vive, à faculdade que cursa, à sexualidade que, mesmo refreada, lhe move os passos, à vida que é sua mas que o mantém assim, em perene deslocamento.
Por fim, em O filho secreto, texto que subverte por completo o ordenamento temporal das ações e até mesmo suas relações de causa e consequência, passado e futuro, o autor realiza profunda imersão na alma feminina, com todas as suas contradições e idiossincrasias, explorando as dores cotidianas, os anseios e os medos de uma mulher rica e infeliz que não consegue jamais se sentir plena em seus relacionamentos com os homens e que, também por isso, voluntária ou involuntariamente (caberá ao leitor julgar), entrega-se à submissão e à servilidade que o mundo lhe impõe. Restam-lhe, como consolo, revisitar obstinadamente a própria infância (“remendada, inóspita, fictícia, especial, inventada”) e cuidar dos filhos que botou no mundo (buscando-lhes no colégio, comprando-lhes guloseimas) ao mesmo tempo em que sonha com um amor renovado (ou, pelo menos, com a fruição de uma carnalidade intensa, inédita) e acalenta o medo de uma nova armadilha preparada pelo seu próprio corpo, um tumor prestes a eclodir e vir à luz, como um filho secreto e tanatogênico.
O texto de Benhur Bortolotto, arquitetado com sutilezas e articulado em linguagem poderosa de significados, flui com o ritmo próprio dos sonhos, quase em livre associação, alternando compassos de placidez e lirismo com trechos de contundente adensamento. As metáforas imprevisíveis, as ambiguidades calculadas, as sinestesias cheias de mistério, as ironias cindidas entre o amargor e a acidez – todos os recursos estilísticos são orquestrados para sustentar uma mirada peculiar sobre as pequenezas do mundo, as quais, sob a lente ficcional, como ocorre na obra dos grandes escritores, acabam por adquirir a asfixiante dimensão dos mitos.
As narrativas, sempre desafiadoras, contemplativas, que tanto revelam quanto escondem, são um constante enigma, um emaranhado de símbolos a serem decifrados e que, nas poucas páginas ocupadas pelos enredos e nas poucas horas de suas cronologias, ousam encerrar pungentes verdades acerca da paixão enquanto fruto de idealização, da universalidade sem gênero dos amores e desse inevitável calabouço chamado solidão.
Rafael Bán Jacobsen