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    O julgamento de Sócrates -

    I. F. Stone

    Companhia de Bolso
    2005
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-10: 8535906843
    Português Brasileiro
    3.9
    175 avaliações
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    Uma investigação jornalística do processo que culminou com a condenação do filósofo grego. Stone mostra que o inventor da maiêutica não era propriamente um santo, nem a Atenas daquele tempo o berço da democracia relativa. Uma carreira de setenta anos fez de I. F. Stone um dos jornalistas mais importantes e confiáveis do mundo. Irônico, radical e bastante polêmico, Stone aproveitou a aposentadoria para investigar temas que sempre o haviam perseguido: a liberdade de pensamento e de expressão. Dedicou dez anos ao estudo da história da Grécia antiga e de Roma, tornando-se grande conhecedor de grego arcaico e especialista no julgamento de Sócrates - que, acusado de corromper a juventude com suas ideias, foi condenado a beber cicuta. O resultado é uma obra extensa, fruto de pesquisa quase obsessiva; uma das mais completas sobre o pai do método indutivo e a Atenas de seu tempo. Com apresentação do jornalista Sérgio Augusto e tradução do premiado poeta Paulo Henriques Britto.

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    José Rogério Beier picture
    José Rogério Beier26/07/2025Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Indispensável para todos que gostam do mundo Clássico.

    Antes dos comentários específicos acerca desta obra, convém apontar, de saída, que ela apresenta alguns problemas sérios, especialmente os diversos anacronismos e falsas analogias feitas por Stone na comparação entre a Atenas dos séculos V e IV a.e.c. e a organização da sociedade contemporânea do autor, sobretudo o contexto mais relacionado à Segunda Guerra Mundial e o mundo pós-guerra (Guerra Fria, guerra da Coréia, Vietnam, colapso da URSS). Nesse sentido, são bem pouco interessantes as passagens em que o autor sugere possíveis identidades entre a democracia ateniense do século IV a.e.c. com os EUA (ocidente/OTAN), bem como entre os regimes totalitários do século XX - Alemanha nazista; a Itália fascista; a China de Mao; a URSS de Stálin - com as monarquias despóticas e tiranias da antiguidade, que também aparecem exemplificadas através dos governos militares/autocráticos das cidades-estado de Esparta e Creta. Outro ponto negativo da obra, ainda que pontual, é que Stone emprega termos pouco apropriados para uma obra apresentada como um estudo aprofundado sobre Sócrates e sua época. Exemplo disso é o termo "idade das trevas" para se referir ao período medieval. Para além dos pontos negativos, vale dizer que Stone toma o julgamento de Sócrates, ocorrido no ano de 399 a.e.c., como objeto de privilegiado de seu estudo. Já no prólogo de sua obra, o autor informa que seu interesse, antes de tudo, está em compreender como Atenas pode ter condenado Sócrates à morte sob a acusação de impiedade e corrupção da juventude. O paradoxo se põe, pois a Atenas democrática do período de Sócrates é conhecida, justamente, por sua abertura aos cidadãos, de modo geral, e aos filósofos e dramaturgos, particularmente, pela liberdade que estes tinham para se expressar publicamente. Como compreender, então, tal condenação em 399 a.e.c.? Qual a perspectiva da cidade ou, se preferir, dos acusadores? Stone propõe-se, então, a fazer uma espécie de cobertura jornalística do julgamento de Sócrates empregando, para tanto, diversos tipos de fontes, especialmente aquelas produzidas por contemporâneos de Sócrates, quais sejam, os diálogos filosóficos de Platão, Xenofonte e Aristóteles (ex-discípulos de Sócrates, com exceção deste último, cujo mestre era Platão), bem como a produção cômica e trágica da época, com destaque para as obras de Aristófanes; Ésquilo; Eurípedes e Sófocles, dentre outros. Ainda sobre as principais fontes, Stone faz uso contínuo dos quatro diálogos platônicos que tratam do julgamento e morte de Sócrates: Eutífron, Apologia, Críton e Fédon. Da literatura socrática, destaca-se o retrato de Sócrates deixado pela obra de Aristófanes, que lhe dedicou toda a sua comédia intitulada "As nuvens", além de outras três peças "As aves"; "As rãs"; "As vespas". Merece atenção, ainda, o uso que Stone faz de pequenas referências aristotélicas para reconstituir o perfil de Sócrates. Aristóteles, nascido quinze anos após o falecimento de Sócrates, era discípulo de Platão e traz, segundo Stone, uma visão menos apaixonada do mestre de seu mestre, tratando das contribuições à filosofia dadas por Sócrates de modo mais "áspero e preciso" em lugar da devoção com que Platão tratava seu mestre. De modo geral, impressionou-me, particularmente, o êxito de Stone ao desconstruir a imagem do Sócrates platônico e do Sócrates xenofontico em uma análise à contrapelo das fontes empregadas, ou seja, a partir das leituras críticas que fez dos diálogos e fragmentos dos próprios discípulos de Sócrates. Inegável que encontrou apoio nas contribuições de muitos comentadores dos mais de 20 séculos que se seguiram ao falecimento de Sócrates, sejam eles os autores latinos, como Cícero; medievalistas, como Santo Agostinho; de autores modernos ou contemporâneos, como os organizadores do Dicionário de Oxford. Desde o início de sua empreitada, Stone busca apresentar ao leitor a existência de uma série de divergências profundas entre as ideias difundidas e ensinadas por Sócrates e aquelas valorizadas pela cidade de Atenas, especialmente no contexto da então recente restauração democrática na cidade, desde a derrota em Peloponeso e um breve regime não democrático, em 404 a.e.c. (oito meses). É nesse contexto que Sócrates emerge como um defensor da monarquia absoluta em oposição a uma Atenas que busca se reorganizar a partir dos valores democráticos cultivados, então, há pelo menos dois séculos na cidade, destacando-se a participação das classes-médias e de pobres na vida política ateniense. Mais do que defensor da monarquia, Sócrates é identificado por Stone como um admirador da organização social de Esparta e Creta, cidades-estado governadas por reis e uma oligarquia militar, contra as quais Atenas frequentemente se envolvia em guerras, como a própria guerra do Peloponeso, da qual Atenas saiu derrotada apenas cinco anos antes do julgamento de Sócrates. Os ensinamentos de Sócrates, portanto, são entendidos como perigosos para a democracia ateniense, especialmente porque dois de seus discípulos (Crítias; Cármides) tiveram atuação importante nos golpes encetados contra a própria cidade em anos anteriores (411 e 404 a.e.c.). Ambos são identificados por Stone como "aristocratas antidemocráticos". Dois capítulos importantes do livro que captam bem esse contexto do perigo que as ideias socráticas representam para a democracia ateniense são aqueles intitulados *"11. Os três terremotos"* e *"12. Xenofonte, Platão e os três terremotos"*. Trata-se dos três terremotos políticos que se abateram sobre Atenas na última década do século V a.e.c. No capítulo 11, Stone explica quais foram os três golpes contra a democracia ateniense: 411; 404 e 401 a.e.c. Nas duas primeiras (411 e 404), elementos descontentes, aliados com os espartanos, derrubaram a democracia e instalaram uma ditadura. Já em 401, apenas dois anos antes do julgamento de Sócrates, houve uma nova tentativa de derrubar a democracia. Esta, no entanto, foi malfadada. No capítulo 12, Stone demonstra como ideias antidemocráticas que inspiraram esses três golpes contra Atenas são descritos nas obras de Platão e Xenofonte. Da leitura deste capítulo, principalmente quando Stone faz a análise de "A república", de Platão, evidencia-se claramente a profunda marca antidemocrática dos ex-discípulos de Sócrates, ao ponto de o autor considerar Platão (anacronicamente) um "perigoso revolucionário", sublinhando a desumanidade com a qual este tratava da necessidade do extermínio de cidadãos em sua república ideal. Outro capítulo que merece ser destacado na obra de Stone é o *"17. As quatro palavras",* no qual I. F. Stone faz uma análise filológica das palavras gregas empregadas, desde o século VI a.e.c., para expressar o conceito de "liberdade de expressão" nas obras clássicas (especialmente em Homero e no Teatro grego). Assim, a despeito dos problemas que a obra apresenta, especialmente no que diz respeito aos anacronismos, a leitura deste livro de I. F. Stone ainda é relevante, pois faz emergir um Sócrates totalmente despido da sacralidade tão bem construída por seus discípulos, dando-lhe uma roupagem mais humana e menos crística. Em tempo, a aproximação entre Sócrates e Jesus é feita por I. F. Stone desde o prólogo de sua obra. Sua intenção, parece-me, é justamente destacar o caráter fictício que se pode depreender da vida de ambos os personagens, uma vez que nenhum deles deixou escritos próprios, tendo suas vidas e obras sido descritas apenas por seus discípulos ou por gerações que os sucederam após muitas décadas e séculos. Desta forma, Sócrates pode ter tido uma existência real ou sido apenas uma personagem criada por Platão, tal como Jesus pode ter sido uma criatura de Paulo. A cidade-estado de Atenas, por sua vez, se não foi justificada pela condenação de Sócrates na obra de Stone, ao menos aparece retratada de forma mais apropriada com os valores daquela quadra histórica em que Sócrates teria vivido e pisado em suas pedras.

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