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    Os Quarenta Dias de Musa Dagh -

    Franz Werfel

    Paz e Terra
    2003
    824 páginas
    1d 3h 28m
    ISBN-13: 9788521901181
    Português Brasileiro
    4.5
    6 avaliações
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    Escrito em 1933, o romance 'Os quarenta dias de Musa Dagh', de Franz Werfel (1890-1945), é inspirado na luta de um grupo com apenas 5 mil pessoas, formado por homens, mulheres e crianças, contra os jovens turcos que, em perseguição aos armênios, haviam alcançado os vilarejos na costa da Síria, no Monte Dagh, ao sul do Golfo da Alexandretta. Detentor de um estilo literário que o consagrou como um dos maiores escritores europeus, Franz Werfel em Os quarenta dias de Musa Dagh utiliza-se da história de seu protagonista, Gabriel Bagradian, para chamar a atenção para a questão da Armênia. Entre as obras mais conhecidas do autor está A canção de Bernadette.

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    Luisa Coquemala picture
    Luisa Coquemala19/12/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Para o inexplicável em nós e acima de nós

    Em 2015, tive meu primeiro contato verdadeiro com a história do povo armênio. Por conta do centenário do genocídio do povo armênio, um concurso de redações sobre o tema foi promovido. Muito mais que a ambição pelo prêmio, me inquietou a falta de conhecimento sobre acontecimento histórico tão espantoso. Em uma rápida busca virtual, me deparei com uma série de informações inquietantes. Como assim, alguns países não reconheciam uma matança de tal proporção? Afinal, quem era esse povo tão curioso e injustiçado? Tomada do desejo de saber mais, fui à biblioteca e emprestei alguns livros sobre o assunto. As palavras de Arnold Toynbee e Lorde James Brice em Atrocidades Turcas na Armênia me deixaram um pouco mais à par da questão. Me empolguei e mergulhei em outros livros. Perdi o prazo do concurso, mas me emocionei com o triste relato de Soghomon Telemian e Michael Arlen – um, o armênio que perdeu tudo no genocídio e buscou remediar o sofrimento em um ato desesperado, assassinando Talaar Pasha; o outro, um fruto da diáspora que tenta compreender sua identidade armênia, essa eterna questão. Em um primeiro momento, portanto, o que me marcou em relação aos armênios foi a questão do genocídio. Sempre que pensava no primeiro povo oficialmente cristão do mundo e no belo monte Ararat, a sombra do sofrimento vinha atrás, com o sabor da injustiça e do fardo a ser carregado. De fatos, mesmo que por leituras e fotos muito antigas, é impossível esquecer o sofrimento dos eruditos enforcados em praça pública; dos cadáveres de mulheres, crianças e idosos empilhados em Deir-el-Zor; da conivência silenciosa dos aliados dos turcos na Primeira Guerra Mundial. Até para quem não vem de uma família armênia, como é meu caso, a ferida aberta pela falta de reconhecimento total (e sobretudo dos maiores responsáveis) incomoda depois de um pouco de conhecimento sobre o sofrimento de tantos inocentes. E assim me mantive, por algum tempo, em relação aos armênios. ********** Em setembro, iniciei duas coisas que viriam mudar minha perspectiva sobre os armênios: o curso de Arte e Cultura Armênia na USP e a leitura de Os 40 dias de Musa Dagh, de Franz Werfel. O romance histórico de Werfel fala sobre a célebre resistência de sete vilas de Antióquia que não se resignaram à crueldade das deportações e, subindo para o Damlaik, optaram por resistir através da luta armada de uma minoria em desvantagem, mas com vontade inabalável de viver. Junto das primeiras páginas do livro, as aulas do curso começaram. Havia uma boa quantidade de armênios na sala – os frutos das famílias sobreviventes do passado sangrento. Os conhecimentos históricos de ambos de completavam. A narrativa fluida de Werfel, repleta de personagens vívidos e cativantes, ilustrava muito bem alguns dos aspectos culturais vistos em sala. Aos poucos, comecei a entender que os armênios são compostos de luzes e sombras, como os contrastes nos quadros de Bachindjaghian. Ao lado do trágico histórico de matanças e perseguições, descobri um povo extremamente receptivo e culto, que valoriza seus frutos de cabeça erguida. Pude compreender que o genocídio acontecer, mas que os armênios são muito mais do que isso: são a bela igreja e Etchmiadzin, a delicadeza das khatchkars e das rendas; as ornamentações de panteras, águias e videiras. Os armênios são fruto de uma história que começa há muito tempo, com o mito de Hayk e guerras por sua religião e território. E tal história se estendeu pelas cédulas de dinheiro com algumas de suas grandes figuras estampadas e também pelo ressoar do duduk de Léon Minassian. Alguns desses elementos aparecem, mesmo que brevemente, no romance de Werfel. Antes da subida para o Musa Dagh, conhecemos a vida cotidiana das vilas armênias da região e sua produção de pães e artesanatos. Também nos são apresentados personagens representativos da cultura armênia: Ter Haigasum, o padre e pai espiritual de todos; Sarkis Kilikian, rebelde incompreendido cujos pais foram mortos no massacre perpretado por Abdul Hamid, em 1897; Krikor, o farmacêutico e amante de livros; Bedros Altouni e sua esposa, responsáveis pela saúde de todos; a crente família Tomasian; Gabriel Bagradian, os “estrangeiros”; Nunik, a feiticeira da região. Através do tempo e do espaço, a resistência inabalável dos heróis de outrora sobrevivia na face dos armênios que, indo ao curso, procuravam, em pequenos gestos, eternizar sua rica cultura. O famoso verdo de Paruyr Sevak, no único e antigo alfabeto armênio, parecia ali ressoar: “somos poucos, mas somos armênios”. As fisionomias dos combatentes retratados no romance de Werfel se transformavam, ali, em outro tipo de resistência: a valorização da luz, não da sombra. Eis a prova de que esse povo é muito maior do que sua tentativa de extermínio e que o espírito do personagem Krikor, carregando seus livros montanha acima, como um bem maior, continua e podemos testemunhar o “profundo amor dos armênios pela cultura, o segredo de todas as verdadeiras raças antigas, que sobrevivem aos séculos”. Testemunhas tudo isso e conhecer o outro lado do espectro foi uma experiência única e aos personagens inesquecíveis do livro de Werfel eu acrescento o simpático professor; a mão e a filha cujos olhos brilhavam nas aulas e que trouxeram a nova geração dançar, incluindo nós, “de fora”, em sua generosidade; o animado senhor que sentava no fundo e, usando um boné com as cores da bandeira, gritou certa feita que os armênios ainda dominariam o mundo; a senhora cujos olhos aguaram, com um sorriso melancólico no rosto, ao ouvir o som do instrumento que seu avô tocava. Todos são parte de uma vasta história – uma das mais trágicas, com certeza, mas também uma das mais belas e artísticas já registradas. O campo de luta dos armênios é, hoje, a valorização do que eles têm de melhor em sua memória coletiva, em sua cultura. Sinto em mim, como uma esperança de quem olha de fora, que um dia a nação armênia, aonde quer que esteja, vai se reerguer completamente. Como fazem ainda hoje, pouco a pouco, em seus ensinamentos e leituras. Tal sentimento se baseia no que de mais certo e puro pude observar: os armênios, acima de tudo, vivem na chama acesa, alimentada por sua luta incansável e sua esperança.

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    Franz Viktor Werfel profile picture

    Franz Viktor Werfel

    Romancista, dramaturgo e poeta austríaco, ficou conhecido principalmente como autor de <i>Die Vierzig Tage des Musa Dagh</i>, baseado em eventos ocorridos durante o Genocídio Armênio de 1915. Judeu, exilou-se do nazismo nos EUA, onde faleceu.

    6 Livros
    3 Seguidores

    Franz Viktor Werfel