O estilo e a verve tão peculiares dos romances e contos de Caio Fernando Abreu certamente impressionam mais seus leitores do que suas crônicas. Não que a estas falte qualidade – muito pelo contrário –, mas o fato é que até o momento o mercado editorial dispunha de apenas um livro de crônicas do autor: Pequenas Epifanias, uma seleção póstuma organizada por Gil França Veloso em 1996, pela editora Sulina. O livro reunia alguns textos publicados no Estado de S.Paulo entre 1986 e 1988, além de outros entre 1993 e 1995.
Neste A Vida Gritando nos Cantos, as pesquisadoras Lara Souto Santana e Liana Farias “escarafuncharam” exaustivamente os arquivos do Estadão até conseguirem reunir um número muito maior das crônicas que Caio F. publicou naqueles fins dos 80, nacos dos 90.
O resultado não podia ter sido melhor: um verdadeiro presente para os admiradores de Caio porque agora eles estão diante de uma amplitude muito maior de seu trabalho como cronista. Não temos mais apenas uma seleção de crônicas. Agora temos praticamente tudo. Por esse motivo, este A Vida Gritando nos Cantos deve ser lido em conjunto com Pequenas Epifanias. Os dois livros se completam ao revelar a grande riqueza estilística e o desembaraço com que ele enfrentava a árdua tarefa de publicar um assunto novo a cada semana.
Assim, o grande romancista e contista se mostra como hábil narrador das miudezas de um cotidiano que já passou, mas que permanece atual pela vivacidade, a graça, a inspiração e a capacidade que ele tinha de não apenas informar, mas também comentar e opinar sobre os mais diversos assuntos.
Caio demonstra maestria como um cronista de habilidades múltiplas: consegue se expressar com o mesmo lirismo de uma Cecília Meireles ou de um Carlos Drummond de Andrade, a mesma ironia de um Fernando Sabino, uma introspecção próxima à de Clarice Lispector, um bate-papo despretensioso parecido com o de um Otto Lara Rezende, o mesmo tom besteirol (para se usar um termo da época) de um Stanislaw Ponte Preta ou o humor de Luís Fernando Veríssimo, sem falar na mordacidade, na malícia e na crítica áspera e cruel de um Nelson Rodrigues. Tudo isso sem copiar nenhum deles, porque Caio... bom, Caio era Caio. Caio F., sim, cronista dos melhores.
É por esses caminhos que relembramos, com ele, filmes, peças de teatro, artes plásticas, shows e outros eventos da época, como obras de Fassbinder, Wim Wenders, músicas e performances de Laurie Anderson, ou voltamos no tempo contemplando quadros de Bosch ou a música de Glenn Miller ou a vida de Zelda e Francis Scott Fitzgerald. É com ele que lembramos, sem dó nem piedade, que o filme Atração Fatal foi muito divertido, cheio de suspense, mas profundamente moralista e, por isso, prestava um desserviço à luta contra a caretice que os jovens tentavam empreender contra o sistema em plena era da aids.
É com ele que temos notícias de fatos curiosos sobre diversas personalidades da música e da literatura, das artes, da televisão, do cinema e do jornalismo, como Rita Lee, Cazuza, Marina Lima, Patrício Bisso, Tutty Vasquez, Suzanne Vega, Ney Matogrosso, Derek Jarman, Madonna, Vânia Toledo e Ana Cristina Cesar, por exemplo.
É com as crônicas de Caio que temas como sexo, política, cinema, a passagem do tempo, as relações de amor e amizade, o medo, a economia caótica, Deus, novelas e mais o que você quiser são abordados de forma nua e cruel, de frente, sem rodeios, às vezes de forma irada, às vezes de maneira poética e, em outras, com muita, muita descontração.
Sem falar no vocabulário próprio de Caio: termos como naja, lasanha, saia justa, jacira, nigrinha, rodenir...
Uma riqueza de conteúdo infinitamente maior e mais rica que as citações piegas e idiotas que costumam aparecer em redes sociais – falsamente atribuídas a ele. Depois deste A Vida Gritando nos Cantos, você vai compreender porque Caio não pode ser autor de qualquer bobagem.
Um livro para se ler e reler para sempre.