Do início da Idade Moderna até época bem recente, a filosofia mudou o curso de muitas vidas e mobilizou multidões capazes de viver ou morrer por uma idéia. Durante a segunda metade do século XX, porém, essa busca perdeu grande parte de seu interesse.
Na tradição analítica, mais forte nos países anglo-saxões, o pensamento foi submetido a normas rígidas que, em sua versão mais extrema, descartam a maior parte da obra dos grandes autores do passado a palavreado sem sentido e reduzem o resto a exercícios de lógica formal.
Já a tradição “continental” franco-alemã (e uspiana) dedica o melhor de seus esforços a uma análise de texto quase filológica e à elaboração de intermináveis notas de rodapé aos grandes filósofos do passado.
Em ambas as tradições, a filosofia tornou-se tão apaixonante quanto um jogo de palavras cruzadas. Esse desencanto se projeta sobre o passado e esvazia a história da filosofia como uma discussão cada vez mais tediosa e minuciosa de áridas questões metodológicas.
É preciso mais do que isso para explicar a dinâmica dos debates filosóficos do passado. Como aponta a filósofa israelense Susan Neiman, em "O Mal no Pensamento Moderno – uma história alternativa da filosofia", falta a uma tal narrativa o que é mais essencial para uma história plausível: um motivo convincente.
Ela propõe como fio condutor a questão mais cruciante para quem procura a inteligibilidade do mundo e o sentido da vida: o problema do mal. Além de mais interessante, este ponto de vista mostra-se mais fiel às intenções explicitadas pelos filósofos do passado e também muito mais inclusivo: textos como o "Cândido", de Voltaire, ou a "Justine", do Marquês de Sade, tornam-se tão importantes quanto "A Crítica da Razão Pura", de Immanuel Kant.
Mais importante, ao expor as verdadeiras raízes do questionamento filosófico, explica de forma muito mais satisfatória a dedicação de tantas grandes mentes a essa busca sem fim nem resultados aparentes – e que às vezes implicou o risco de se ver condenado a beber cicuta ou a queimar na fogueira.
Começa por Pierre Bayle que, com seu "Dicionário Histórico e Crítico" de 1697, o tratado mais popular do século XVIII, foi o primeiro a expor sem papas na língua a questão que, até o século XIX, permaneceu no coração da filosofia: se há o Deus da tradição judaico-cristã, por que o mal existe? Se Deus deseja remover o mal e não pode, não é onipotente; se pode e não quer, não é bom.
Segundo a tradicional justificativa agostiniana, o mal físíco é punição do mal moral – ou, pelo menos, do pecado original de Adão e Eva. Isso não satisfez Bayle, nem nenhum filósofo depois dele. Deus certamente sabia o que aconteceria se os expusesse à tentação. Teria sido preciso supor que Ele desejou de toda eternidade que o homem pecasse – e que o primeiro pecado fosse contagioso e produzisse todos os crimes e infortúnios imagináveis.
Leibniz julgou necessário sair em socorro do Arquiteto do universo. Em sua "Teodicéia" (literalmente, "A Justificação de Deus") argumentou que Deus não poderia fazer melhor do que fez: este é o melhor dos mundos possíveis, mesmo que ainda não sejamos capazes de explicar os inescapáveis propósitos de todas as suas aparentes imperfeições.
Desde o início, soou pouco convincente. Quem não seria capaz de apontar males que poderiam racionalmente não existir? E a partir de 1755, o grande Terremoto de Lisboa, que chocou a Europa com a destruição de uma das cidades mais beatas do continente, os argumentos de Leibniz soaram não só frágeis, como insultuosos. Como justificar o sofrimento, mutilação e morte de milhares de crianças inocentes com qualquer desígnio ignoto?
A resposta mais direta a Leibniz veio da pena de Voltaire, embutida nas aventuras do pobre Cândido e de seu mestre, o Dr. Pangloss. Sade propôs outra solução, ainda mais aflitiva: se toda a natureza expressa a vontade de Deus, orientemo-nos por ela e sejamos perversos.
A saída de Jean-Jacques Rousseau, porém, foi a mais fértil: deixou de lado a responsabilidade de Deus e fixou-se na do homem. Distinguiu, pela primeira vez, o mal natural – produto de uma ordem na qual se pode procurar causas, mas não finalidades – do mal moral pelo qual o homem é o único responsável, que pode ser combatido e que é o único digno de reflexão filosófica.
Immanuel Kant, que levou essa separação às últimas conseqüências e dissociou totalmente a virtude de qualquer expectativa de recompensa ou punição, agraciou Rousseau com o título de “o Newton da mente”: o filósofo de Genebra teria provado, como o físico inglês, a infalibilidade da ordem divina.
Mas tal ordem, ao enfatizar a responsabilidade do homem, parecia bem capaz de dispensar qualquer divindade. Hegel tirou essa conclusão e, como Prometeu, tomou os céus de assalto ao sugerir que Deus está morto e o homem deveria substituí-Lo. Só deixou de roubar o fogo, mas Marx remediaria o esquecimento.
Nietzsche e Freud abordaram a mesma questão de formas muito diferentes, mas ambos também transformaram a questão do mal em um problema sobre o ser humano, que convida a uma recriação radical do mundo.
Auschwitz, porém, foi um golpe tão duro para a fé na humanidade quanto Lisboa havia sido para a crença na Providência. Houve outras desgraças no século XX e Verdun, Hiroshima e o Gulag foram páreo duro. Mas podiam ser explicadas como irrupções de estupidez ou resultados trágicos de boas intenções.
O Holocausto foi muito pior. Não pelo número de vítimas, mas pela combinação de intenção inequivocamente maligna com perfeita racionalidade de execução – viabilizada, como mostrou Hannah Arendt, pela mesquinhez banal de pequenos cúmplices como Adolf Eichmann, dispostos a tudo para o bem de suas carreiras.
Chocada, a filosofia praticamente desistiu da questão do mal – e, com isso, de sua relevância e até do próprio princípio da razão suficiente. A obra de Neiman é um apelo a enfrentá-la novamente. Sem tentar entender o mal, não temos como combater suas causas; sem a exigência de que razão e realidade se encontrem, não temos sequer como sentir culpa ou indignação. Muitos condenarão qualquer tentativa de buscar explicações para Auschwitz – ou mesmo para o 11 de setembro – mas qualquer racionalidade que ignore tal fatos valerá muito pouco.