De que é feito o homem que caminha seguindo o rio? E de que é feito este rio, que é tanto o devir histórico quanto a trajetória de um ser? Esta relação cultura-natureza, expressa pelo telurismo cabralino é um dos temas deste livro. O caminho do Capiberibe é o rio Severino de João Cabral de Melo Neto, o grande poeta-viajante, um dos grandes poetas brasileiros. Sua poesia é freqüentemente comparada à paisagem de sua terra natal: o sertão pernambucano. A obra é, portanto, um convite para uma geografia humanista e literária. Uma geografia telúrica que se permite misturar com a natureza e a arte.
Caminhos de morte e de vida: o geográfico e o telúrico no rio severino de João Cabral de Melo Neto -
Janaina de Alencar M. e S. Marandola
O PENSAMENTO CABRALINO – CONTRIBUIÇÕES LITERÁRIAS PARA CONSTRUÇÃO DO SABER GEOGRÁFICO
A arte é, segundo Michel de Certeau (2011, p. 129), um “saber-fazer” complexo, e que mesmo operando fora do “saber esclarecido” da ciência procede a este. A literatura, em seu misto de hipérboles, fantasias, metáforas e experiências, revela a essência da realidade apreendida pela sensibilidade perceptiva de seus autores. A geografia, principalmente a Geografia Humanista, nos oferece elementos para pensarmos, de maneira efetiva, a relação espaço/meio e a essência da realidade revelada. Ancorados em um arcabouço de possibilidades que a geografia revela, nos aproximamos de um mundo cotidiano vislumbrando suas muitas perspectivas, entre as quais a arte, delineando suas possíveis contribuições para compreensão da existência humana. É nesse sentido que a abordagem Humanista vem ganhado espaço nos centros acadêmicos, em trabalhos e pesquisas que contribuem para a construção de um saber geográfico sustentando um conhecimento mais próximo da cotidianidade da existência humana. O livro de Janaina de Alencar M. e S. Marandola, Caminhos de Morte e de Vida: o geográfico e o telúrico no rio Severino de João Cabral de Melo Neto, originário da dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e orientada pela professora Lívia de Oliveira, foi publicado em 2011 pela Editora da Universidade Estadual de Londrina (Eduel). Sua publicação enfatiza que a obra é um recente exemplo da expressividade e importância dos trabalhados com essa abordagem. Ao estudarmos as páginas desse livro, observamos a clareza na escrita da autora ao estabelecer a perspectiva de um olhar geográfico para as obras de João Cabral de Melo Neto, principalmente o tríptico do rio, composto pelos poemas “Morte e vida Severina”, “O Rio” e “O Cão sem Plumas”. Ao expor nessa empreitada toda sensibilidade literária presente em João Cabral – velada pela secura diligente que estruturam seus versos – revela a essência de uma realidade geográfica, enunciando que, construída como um projeto modernista lecorbusiano, a poética de João Cabral anuncia/denuncia a secura dos rios e da terra do agreste pernambucano. Nesse ensejo, a primeira parte do livro, “Em busca de caminhos para pensar Geografia e Literatura”, chama atenção para dois fatos: as abordagens nas quais a geografia (geógrafos) têm se baseado para pensar suas leituras referentes às artes;. e a reflexão sobre a relação obra/autor, relação esta que norteia o pensar da pesquisadora por todo trabalho. Já na segunda parte, “A poesia telúrica de João Cabral”, Marandola delineia, de maneira concisa e clara, a história de vida de João Cabral de Melo Neto, apontando seus anseios, projetos e inspirações. Revela a dureza e a objetividade da poética do “poeta construtor”, do “poeta arquiteto”, que substanciado pelo planejamento metodológico de Le Corbusier edifica sua escrita composta de três elementos (também constitutivos de sua identidade): as memórias, as viagens e os lugares em que viveu. É revelada a geografia pessoal, a geografia experienciada pelo poeta, que busca compreender aquilo que une a materialidade, experiência e memória, a dureza e o masculino representados por Recife e a feminilidade representada por Andaluzia, dando os contornos e a harmonia da poesia marcada profundamente por estas duas cidades. A trajetória da obra mais conhecida de João Cabral, a peça “Morte e vida Severina: auto de natal pernambucano”, inicia as reflexões da terceira parte do livro, expondo que João Cabral traz elementos do folclore nordestino ao compor a peça, representados pelos cordéis que influenciam sua obra. A religiosidade foi outra influência visível na obra do poeta, principalmente por ter sido encomendada como peça natalina. Traçando um panorama de suas inspirações, a autora mostra que tanto o folclore como a religião são transpostos da obra Folk-lore Pernambucano, de Francisco Augusto Pereira Costa. Encerrando a segunda parte do livro, a influência dos domínios morfológicos e da vegetação na escrita de João Cabral – e as transformações ocorridas do sertão pernambucano até seu litoral – são descritos. Em um terceiro momento, a autora inicia sua reflexão descrevendo as várias possibilidades simbólicas e poéticas das imagens da água e do rio, vislumbrando a relação entre homem e meio, como também o hibridismo entre o homem, a terra e o rio marcado pelo “Rio-humanizado e o Homem-naturalizado” do caminho ao longo do Capibaribe até o mangue nas margens do rio na cidade de Recife. Termina esta parte com a analogia entre o cinema e o rio Capibaribe, pois, como em um cinema o rio é o lugar onde se passam todas as cenas, inclusive as lembranças, o rio e o cinema são igualmente espessos. Marandola encerra o livro fazendo uma reflexão “Sobre as Geografias Criadas e suas Projeções”, onde descreve os sentidos da escrita de João Cabral de Melo Neto e a importância da arte literária para geografia nos apresentando, assim, um João Cabral que revela através de sua obra o verdadeiro sentido da obra de arte, enfatizando, marcando, enaltecendo, evidenciando a “φύσις” (physis). Heidegger em sua obra Caminhos do Bosque afirma que a physis não se remete a um mundo formado por uma massa material sedimentada em camadas, mas é “donde el surgimento vuelve a dar acogida a todo lo que surge como tal. Em eso que surge, la terra se presenta como aquello que acoge” (Heidegger, 1997, p.35). É o rio Severino de João Cabral que se apresenta e nos acolhe como muito mais que um corpo d’água corrente, mas como um rio de agruras e da secura do sertão. Mais do que um simples olhar para a geografia presente nas obras literária, esse livro revela o olhar sensível da autora para a geograficidade, como coloca Dardel em O homem e a Terra (2011), ainda inspirado em Heidegger, os escritos de Marandola apresentam toda autenticidade literária de “Morte e Vida Severina”. Referências CERTEAU, Michel de. A invenção do Cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução Ephraim Ferreira Alves, ed. 17, Petropolis: Vozes, 2001. DARDEL, Eric. O Homem e a Terra: natureza da realidade Geográfica. Tradução Werther Holzer. São Paulo: Perspectiva, 2011. HEIDEGGER, Martin. Caminos de Bosque. Madri: Alianza, ed.2, 1997.
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