O autor de 'O estrangeiro' e 'A peste' estava trabalhando neste livro quando um acidente automobilístico lhe tirou a vida em 1960. Este é, portanto, um romance inacabado que retrata a Argélia e a infância do autor e explora temas constantes em sua obra, como o absurdo da morte, o artista nômade e o eterno estrangeiro.
O Primeiro Homem -
Albert Camus
Ambas inacabadas: obra e vontade de ler.
Eu ouvi algures por aí, que o leitor nunca deve buscar conhecer o homem que existe por trás de um grande escritor. Felizmente sou compulsivamente curiosa e teimosa e a convergência desses meus "predicados" fez com me tornasse surda a esse conselho, de modo que embarquei com Camus de volta à Argélia dos anos do seu nascimento e infância. Esse embarque literário só fez aumentar a minha admiração e empatia que sinto por esse homem comoventemente humano. O Primeiro Homem de Albert Camus, uma obra, na verdade, um manuscrito de cunho autobiográfico encontrado por ocasião do acidente que o vitimou fatalmente em 1960, transformado em livro em 1994, compõe-se de duas partes: A Procura do Pai e O Filho ou O Primeiro Homem. Constam ainda anexos que, conforme esclarecimentos do editor, estavam inseridos no manuscrito, assim como duas cartas que foram trocadas entre Camus e seu professor Louis Germain. Fiquei emocionada e enternecida diante da história do menino (Camus, representado por Jacques) que é lançado ao mundo, e por se tornado órfão de pai é educado por uma avó analfabeta, severa e autoritária em um bairro pobre no arredores de Argel e que, quando adulto, frente a angustia de não conhecer o pai que fora morto em uma batalha na I Guerra Mundial, numa tentativa de reconstruir a figura paterna, se dirige a Saint-Brieuc, à lapide, onde o pai estava sepultado e, quando lá se encontra, um sentimento de indiferença dele se apossa, mas o que se vê em seguida é comovente: essa indiferença se transforma em pena e ternura, e uma angustia crescente dele se apodera ao se conscientizar que seu pai contava apenas com 29 anos quando foi morto em combate em 1914, portanto, ele filho - era mais velho que o pai e, para descrever seu sentimento com relação a essa morte tão precoce e injusta, se utiliza das palavras: criança injustamente assassinada, palavras que, para mim, refletem a visão que Camus tinha sobre as guerras. O Primeiro homem, mesmo sendo o esboço de uma obra, é riquíssimo, quer seja pela escrita que é belíssima, quer seja pelo que nos é dado conhecer acerca Camus: a família, os amigos, o ginásio, o professor, fatos e pessoas que influenciaram na formação desse homem que se revelou de extrema genialidade, sensibilidade e grandeza.Um ser pacifista, solidário que tinha como combustível o amor. E por falar em amor, O Primeiro Homem, é um livro que busca resgatar a figura do pai, mas, para mim, revela a mãe: uma mulher frágil, um tanto quanto surda, isolada em seu mutismo que "fala" por meio da ternura e do amor que carrega no olhar, e o livro acaba sendo uma Declaração de amor a essa mulher. Claro que muitos leitores poderão dizer: coitada, pirou de vez, mas talvez, estes, concordem com uma opinião minha a respeito dessa obra: trata-se de uma obra inacabada, assim como inacabada é a vontade de lê-la, de relê-la e de relê-la... Guardá-la com todo carinho para novamente, um dia, (re)lê-la.
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