O Clube dos Cornos Melancólicos: De Alexei Karenin a Luís Marcos, passando pelos sertanejos de calças estranhamente apertadas... por que os homens frios e melancólicos não sobrevivem à traição.
Ao pegar O Marido da Adúltera, de Lúcio de Mendonça, eu já sabia o que esperar pelo título óbvio, mas não é por ser óbvio que a leitura foi ruim. Na verdade, acho que esse foi o único momento em que quem escolheu a ordem da coleção acertou em cheio. Na obra anterior, Flor de Sangue, o pobre marido Fernando estava completamente apagado, vítima passiva da trama de sua esposa Corina. Da mesma forma, em Anna Karenina, o marido, Alexei Karenin, é uma figura fria, um obstáculo no caminho da paixão. Aqui, contudo, como um alento para nós que gostamos de algum lampejo de justiça e de ver os dois lados da moeda, o marido traído é o protagonista central. O foco sai do escândalo da adúltera para a anatomia da dor de quem sofre a traição, mas não daquele jeito tosco dos cantores de sertanejo. O romance se desenrola no mesmo ambiente sufocante da sociedade burguesa da obra anterior. A trama central, como sugere o título, é a traição conjugal, mas a grande questão é a inércia de Luís Marcos, o marido traído, nosso protagonista diante do fato. Ele descobre a infidelidade da esposa, Laura, mas é incapaz de agir, seja para confrontá-la, perdoá-la ou libertar-se. O dilema moral crucial não é apenas o do adultério, mas o do sentido de honra do homem do século XIX... como lidar com a desonra social em uma época onde o casamento era visto como um contrato e a honra masculina dependia da fidelidade feminina? Sua covardia e a sua incapacidade de tomar uma atitude transformam-no em um espectador atormentado da própria miséria. De todos os personagens apresentados, paradoxalmente, foi Laura... a esposa adúltera, a prevaricadora, quem mais brilhou durante a leitura, infelizmente... Ela não é a figura demoníaca da luxúria, mas sim a encarnação da completa indiferença burguesa, a apatia total, e eu acho isso incrível. Ela trai por tédio, por falta de ocupação, por um vazio existencial que a sociedade de seu tempo cultivava, muito parecida com Corina. Essa complexidade é interessante, pois tira o foco da "vilania" e o coloca na patologia social... o tédio como motor da destruição. É ela quem quebra a inércia, mas sua apatia em relação ao marido é o que torna a dor dele ainda mais desesperadora. Sabe aquela frase "mente vazia, oficina do diabo"? Então... É muito interessante ler sobre essa perspectiva da pessoa traída, seus dilemas internos e o processo lento e doloroso da descoberta, tudo isso narrado em um português que, embora da época, consegue ser extremamente bonito e límpido ao descrever o sofrimento. O tema da honra é central. É tão comum ouvir sobre a dor da traição masculina hoje, especialmente com a música sertaneja a tornando uma conduta errática, mas aceitável socialmente. Mas o que Lúcio de Mendonça nos mostra é a tragédia do homem cuja honra pública desmorona. Nesse sentido, é um excelente contraponto a obras que também apontam a traição por parte da mulher como O Primo Basílio, e até Memórias Póstumas de Brás Cubas (que trata uma possível traição), ou até mesmo o livro anterior. O romance é um mergulho em como a traição é vista sob o olhar do homem, um tema não tão raro à literatura, mas aqui tratado com uma vulnerabilidade que eu não esperava. Onde viemos parar? Na análise do colapso nervoso masculino. A obra culmina no final trágico, que é a conclusão lógica do peso esmagador dessa honra perdida. Luís Marcos se vê sem saída... não consegue matar a esposa (o ato de vingança exigido pela honra atingida), mas também não consegue viver com a desonra. A única "escolha" que resta é o suicídio. O ato não é um rompimento de raiva, mas uma aceitação resignada de sua derrota social e afetiva. É o ponto final da inação, o momento em que a única ação possível é contra si mesmo, provando que a covardia para viver com a desonra era maior do que a coragem para enfrentá-la. Acredito que a classificação indicativa seria para maiores de 18 anos, por motivos de a narrativa se aprofundar em temas delicados como o adultério e o colapso psicológico. Mais especificamente, o livro aborda de maneira direta o pensamento de cometer o homicídio da esposa e, por fim, a consumação do suicídio. Embora a linguagem não seja gráfica, o peso existencial desses temas exige maturidade para processar a inércia, a humilhação e as consequências extremas da desonra. Foi uma leitura que, apesar do título óbvio, não esperava ser tão interessante e reveladora em termos de análise psicológica. Foi ótimo ler essa perspectiva do lado do traído, mostrando que a dor da traição é um fenômeno complexo que ultrapassa a mera questão moral. Recomendo o livro fortemente para quem busca um drama de câmara, focado na desintegração íntima de um homem.
