(...) Em Autópsia da Sombra, o poeta mede os passos de sua prisão: é uma casa de teto e de soalho móveis, que se podem deslocar tanto para cima como para baixo; e estes são os limites finitos da "prison house", tão elevada que pode abrigar tudo e tão reduzida que pode conter nada. Ele sabe, como Valéry, que dispõe de todo possível da linguagem. E esse todo possível lhe permite falar de tudo e de nada, ou melhor, lhe permite falar de tudo falando de nada. Dizia Goethe que para escrever em prosa é preciso ter alguma coisa para dizer: "Quem não tem nada a dizer, pode muito bem fazer versos e procurar rimas; nestas, uma palavra chama a outra e resulta finalmente não se sabe o que, que de certo não significa nada, mas parece significar alguma coisa". Também se poderia escrever que Hermenegildo Bastos não tem só alguma coisa, mas tudo para dizer: o que fica aquém ou além de si mesmo, num movimento de vai-e-vem entre tudo e nada, e que significa o nada de tudo ou tudo de nada, "a sombra de quem somos..." Benedito Nunes
Autópsia de Sombra -
Hermenegildo Bastos
Sette Letras
1997
61 páginas
2h 2m
ISBN-10: 8573880147
Português Brasileiro
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