Quando recebi pelo correio meu exemplar de Chagas da Condenação, fora uma grata surpresa. Porque estamos tão acostumados com apocalipses zumbis nos malfadados EUA. E nos esquecemos de que se acontecer, acontece no mundo inteiro. É, incluindo o Brasil. É, incluindo o Rio de Janeiro, que segundo as palavras do autor, Victor F. Miranda, “continua lindo”. E não me decepcionei. A estória consegue manter-se verossímil e palpável até o final. Tudo isso sem deixar de lado o humor negro.
De início – principalmente o auge de Resident Evil – os zumbis foram tratados como uma praga nojenta que decididamente tínhamos de matar (porque ver um crânio zumbi se espatifar é muito divertido, diz aí). Depois de algum tempo, veio a HQ de The Walking Dead, que desencadeou a enxurrada de enredos com base no apocalipse zumbi. Mas foi a partir daí que a coisa toda ganhou novas proporções: os zumbis e a ação já não foram mais encarados como mero divertimento para as horas vagas. Porque o lado sentimental e psicológico se sobrepôs a tudo isso – afinal de contas, aquele morto vivo já fora um humano como nós um dia, não? Junte isso ao novo jogo do PS3, The Last of Us, e ao novo filme “Meu Namorado é Um Zumbi”. É quase uma tentativa de absolvê-los de sua sina! Pois Chagas da Condenação joga tudo isso por terra e resgata a velha maneira de lidar com essas criaturas asquerosas: á força.
A trama toda se predispõe a deixar de lado o sentimentalismo e drama esperados em um mundo pós-apocalíptico, centrando-se, ao invés disso, em Bento Batista, um anti-herói nato. Disposto a encarar toda a situação de sobrevivência como um simples entretenimento, Bento isola-se de outros seres humanos e procura viver a vida – ou o que restou dela – de jeitos bastante peculiares, o que inclui comentários ácidos a respeito de qualquer coisa, umas bebidas no bar do Zé, e transas raras com as últimas garotas que restaram na Terra. Mas como em toda situação limite, as coisas não saem exatamente do jeito que ele planeja, e o rapaz se vê envolvido em missões de resgate e trabalho grupal – e o pior de tudo: uma nova paixão.
Comecei a ler Chagas da Condenação e não terminei até ter lido a última página. Porque simplesmente é uma estória que prende. Isso se deve justamente ao fato de um assunto tão pesado e sombrio, como um apocalipse, ser tratado de forma irreverente e engraçada. Sou sincera em dizer que não pude deixar de rir com as piadas azedas e sem sentido de Bento, e com os personagens inusitados que encontra pelo caminho. O mais interessante da estória é que esta parece seguir seu próprio curso. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se vira a página, e a única certeza que tive o livro inteiro foi a de que Bento se safaria de uma forma ou de outra.
Aliás, a personalidade de Bento é algo interessante. O típico carrancudo que tem medo das próprias emoções, escondendo-as por baixo de uma armadura construída por ele mesmo. Foi interessante perceber seu desenvolvimento com o decorrer da trama, aliando-se a novos sobreviventes e, por incrível que pareça, estabelecendo laços com eles. É válido dizer para os que têm pouco estômago: é humor negro, e dos fortes, com direito a palavras de baixo calão. Então se alguma forma o leitor se sentir ofendido por este tipo de linguagem, recomendo que nem tente ler o livro.
A leitura é bastante dinâmica, sem prender-se em pontos desnecessários e progredindo com fluidez, com uma boa e detalhada descrição. O final é surpreendente, justamente por percebermos de forma clara o desenvolvimento de Bento até atingir seu clímax completo e culminar em um final não menos épico, com direito a discurso heroico e uma piadinha infame na última página. O único defeito do livro inteiro foi ter sido tão curto: uma estória dessas definitivamente merecia uma continuação.