RAYMUNDO NETTO é escritor, designer, quadrinhista e produtor cultural. Autor do romance Um conto no passado: cadeiras na calçada, ganhador do I Edital de Incentivo às Artes da SECULT/CE (2005), e dos infantojuvenis A Bola da Vez (2008), A casa de todos e de ninguém (2009) e Os tributos e a cidade (2011), todos pelas Edições Demócrito Rocha. É cronista convidado do Caderno Vida & Arte do jornal O POVO desde 2007. Foi coeditor das revistas CAOS Portátil e da Para Mamíferos. Foi Coordenador de Políticas do Livro e de Acervos da SECULT, responsável pela coordenação editorial, membro do Conselho Curador da IX Bienal Internacional do Livro do Ceará, redator e elaborador do Prêmio Literário para Autor Cearense/2010 e um dos coordenadores da I Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde/2011. Autor de Os Acangapebas, coletânea de contos ganhadora do Prêmio Osmundo Pontes, da Academia Cearense de Letras (2011), e do Edital de Literatura da SecultFOR (2007). Atualmente é editor adjunto das Edições Demócrito Rocha. Mantém o blogue AlmanaCULTURA.
Os Acangapebas -
Raymundo Netto
Um livro de gatos, uma vida de fatos onde a música e a poesia não podem nos deixar em paz
O livro de Raymundo Netto, Os Acangapebas, trata-se de contos que possuem quase uma temática linear, como uma história única, cheia de olhares e retratos. Logo de início, é elucidado que acangapebas significa - aqueles de cabeça chata. Imediatamente me senti impelida a pensar a obra enquanto cercada de contos que permeavam nosso universo cearês. E apesar de desconhecidos e muitos, os personagens todos me pareceram muito familiares, como se fossem aqueles vizinhos de beira de calçada ao final da tarde. Durante a leitura me peguei aplaudindo algumas narrativas um tanto mais do que outras, lembrando outros autores, revivendo histórias outras e mergulhando numa profusão de sentimentos e balanços propiciados pela narrativa que me entorpeceram. Minha próxima afirmação pode parecer engraçada, mas é de um tanto real, Raymundo Netto tem ginga. Durante a leitura de alguns contos nota-se o quanto eles tem "samba", o quanto a história fluia como na cadência de uma música. As palavras rimam entre si de modo a dançarem, rodopiarem, levando a história consigo. E o que falar dos neologismos, quantos tempotodotodotempo, peloamordedeus, calmacalmacalma.... Em cada texto uma peculiaridade diferente. Raymundo falou em muitas entrevistas e também nas conversas pessoais, o quanto o livro foi difícil de sair, um tanto doloroso, pois estava envolto em tantas questões, pessoais por demais, intensas... Bem, costumo dizer para os que ainda não leram ou vão ler o livro que essa dificuldade saiu por fim em uma bela obra. De fato, o mesmo Netto cronista tem uma ótima veia de contista. Dentre as histórias temos algumas sombrias, talvez não só isso, agonizantes até. Com a presença de um riso que mais parece querer disfarçar a dor, o terror, existente em todos nós...... Alguns finais me lembraram Nelson Rodrigues, em seu ahistórico "A vida como ela é ", cheio de mortes, descobertas sinistras e alívios sem fim. Já outros me lembraram F.Sabino como no conto do Juca em pelo, mas mesmo na lembrança, não havia mistura, era definitivamente outro autor que estava ali. Era um novo contista contemporâneo que soube muito bem mexer com as palavras, fazer jus a nossa terra tão cheia de ótimos escritores desse gênero literário, brincar principalmente com os sons e um ritmo que fez de Os Acangapebas um excelente livro para se ler (não a todo momento, talvez não, mas que fará muito sentido para os bons leitores que sempre desejam descobertas, não necessariamente prazerosas de si mesmo, mas cheia de possibilidade de um olhar para si). Tenho alguns contos prediletos,admito. São eles: Álbum de Fotografias, Domingo, Condomínio, Em Pregos, Portas Fechadas, Tara, Perfumen, Tragédia, Gêmeas, Anúncio ou O Espelho, Filho do Cão, Os Acangapebas, Intermezzo, O Circo, O Carnavalesco, Saudades, Cadeiras na Calçada. Praticamente todos!! E coloquei dois na íntegra aqui no blog. Se eu for falar do livro inteiro, de cada um, um por um, não terminarei tão cedo. Tenho mesmo é que parabenizar Netto, pelo seu novo livro e que venham mais. E, além disso, dizer que fiquei mesmo muito feliz de poder estar em contato com esse novo autor, dessa nova geração cearense que expande os horizontes para além do que se produz nas terras alencarinas. Que bom para todos nós.
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