“Prezada irmã,
Enquanto ficamos esse longo período sem nos corresponder, entramos nesta estação agradável, que é a primavera. A névoa passou a cobrir as montanhas Rokko todos os dias. Esse é o período mais belo da região de Osaka e Kobe, e nesta época do ano não consigo ficar parada dentro de casa”
Há livros que falam e dizem o que têm a dizer, há livros que falam e sugerem o que querem dizer; há outros, finalmente, que nos mergulham em universos que, muito provavelmente nem sequer sabíamos existir.
A retórica metafísica da cultura japonesa me é estranha, porém, não me é desconhecida. Por isso digo de modo absolutamente seguro que, para mim, essa obra-prima de Tanizaki pertence a categoria dos romances que nos mergulham profundamente num estudo antropológico da sociedade japonesa da década de 1930 do século XX.
Na primavera de 1934, as quatro irmãs Makioka e o marido de Sachiko, Teinosuke, foram ver as flores de cerejeira em um restaurante em Saga, Kyoto. Sachiko ficou irritada quando Tsuruko, a irmã mais velha da família, disse-lhe para recusar o pedido de casamento de Yukiko, alegando que há um problema com a linhagem familiar do pretendente.
Cinco anos antes, Taeko, a irmã caçula do clã, fugiu com Keibon, filho de Okuhata, um negociante de metais preciosos em Senba, e o incidente virou notícia de jornal e foi erroneamente atribuído a Yukiko, que tinha provocado tal desatino. Essa é a novela de Jun'ichirō Tanizaki, um dos escritores mais proeminentes da literatura japonesa.
Esta é uma história que retrata vividamente a vida de quatro irmãs – Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko – de uma família de comerciantes em Senba, que atingiu o auge da prosperidade e agora encontra-se em declínio financeiro.
Tanizaki retrata de forma paulatinamente vívida a complicada psicologia das irmãs Makioka, centrando-se na história do difícil pedido de casamento de Yukiko, a terceira filha do clã, que é muito tímida, orgulhosa e incrivelmente bonita.
Entretanto, de maneira primorosa, o autor transcende essa questão nos levando para além do que enxergamos na superfície de apenas ser uma história cotidiana de mulheres nas suas rotinas domésticas com seus problemas corriqueiros.
O autor aborda vários temas importantes. Em primeiro lugar, família e casamento. Ao longo das páginas acompanhamos as negociações (ou os ‘miai’) visando aos casamentos arranjados. A família tem um peso enorme, sobretudo o filho mais velho que impõe as suas decisões finais, quando os patriarcas do clã já são falecidos. Aqui, isso fica a cargo de Tsuruko.
Os encontros com potenciais noivos para Yukiko viram uma silenciosa guerra fria (ok, estou exagerando um pouco!), onde são observadas as vantagens físicas, morais e financeiras de ambas as famílias. A família desempenha um papel coercitivo porque o menor erro de uma das irmãs leva a sérios problemas para as outras.
A oposição entre o Japão tradicional e o Japão que quer ser ocidentalizado e moderno constitui o segundo tema principal do romance. Tanizaki utiliza os destinos e as duas irmãs mais novas para realçar esta oposição, com Taeko trazendo um novo fôlego, quase revolucionário, a esta família tradicional.
Os Makioka eram, na época do seu esplendor, uma das principais famílias mercantis de Osaka e ocupavam uma posição social importante, uma posição que as mais velhas não querem esquecer, apesar do declínio financeiro.
O autor coloca assim a questão da escolha: devemos permanecer presos as nossas tradições de outrora ou devemos estar abertos a novas tendências?
Sachiko, a segunda irmã, encarna o difícil equilíbrio entre tradição e modernidade, entre o apogeu da prosperidade e o desejo de manter a sua posição e a necessária adaptação à sua nova condição. Ela forma, com o marido Teinosuke, um casal moderno, mesmo que não transpareça à primeira vista, mantendo com ele uma relação fecunda baseada na reciprocidade e na confiança mútua. Ela é o coração pulsante da família Makioka.
Taeko, a caçula das irmãs, personifica a modernidade. Ela se dedica a ganhar seu próprio dinheiro e provê seu próprio sustento, tem amantes e só se veste no estilo ocidental, o que, no romance, é um grande marcador do grau de emancipação da mulher japonesa daquela década. Mas suas escolhas ousadas muitas vezes a levam à beira do abismo e lhe trazem consequências que eu sequer imaginei se concretizarem.
Yukiko, personifica a tradição. Uma mulher dos tempos antigos perdida em um mundo em completa convulsão, ela passivamente coloca tudo relacionado ao seu futuro inteiramente nas mãos de sua irmã Sachiko e de seu cunhado Teinosuke. Porém, sempre é sabotada pela irmã primogênita, Tsuruko.
O autor, e esta é na minha opinião uma das razões pelas quais adoro tanto este livro, que li duas vezes, num intervalo de onze meses, mantém-se constantemente nos pensamentos das suas personagens, demonstrando compreensão infinita para com elas.
Tal como Tolstói em “Anna Karenina”, Tanizaki nunca as abandona, concentrando-se nos seus pensamentos mais íntimos, bem como nas suas reações mais imprevisíveis, assim como nas suas emoções mais contraditórias, por vezes reveladas por um pequeno detalhe.
Outro aspecto importante da obra e de seu caráter de herança no cotidiano é o contexto histórico da obra, que tem a Segunda Grande Guerra europeia como pano de fundo, que vai pouco a pouco impactando a vida das irmãs, demonstrando como, especialmente nos anos iniciais do conflito, ela reverbera dentro do cotidiano dessas mulheres.
Um dos momentos que mais se evidencia a guerra e seus detalhes é a presença recorrente dos Stolz, família alemã vizinha de Sachiko, cujas crianças tinham muita proximidade com sua filha Etsuko, além da própria Sachiko manter laços e conversas com a matriarca, Hilda Stolz.
O próprio contexto de agravamento das tensões na Europa força os Stolz a retornarem para a Alemanha, e Hilda e Sachiko trocarem correspondências, nas quais a ascensão do nazi fascismo e a acentuação das tensões já mencionadas no velho continente se tornam tópicos marcantes o suficiente para serem evidenciados nas cartas.
As quatro irmãs são todas criações cômicas extraordinárias, todas sendo profundamente enganosas e cada uma possuindo personalidades diferentes, de modo que o fluxo dos eventos as torna imprevisíveis, nos deixando curiosos para saber como irão reagir ante as novas adversidades.
Tanizaki deixa muito claro que considera todas elas mulheres essencialmente superficiais obcecadas pelas aparências e resolutamente indiferentes a quaisquer questões importantes em sua sociedade.
Elas são irracionais e indelicáveis com seus empregados. Elas mal tomam conhecimento da Guerra da Manchúria e não têm a menor noção de que os líderes de seus país embarcaram em um caminho que destruirá seu modo de vida.
Há tanto brilho na criação de personagens que são tão humanos, que são difíceis de categorizar. O ligeiramente autoritário Tatsuo; a subserviente, mas resiliente Tsuruko; a mais carinhosa, porém, antipaticíssima Sachiko; o inteligente, gentil, mas ligeiramente ortodoxo Teinosuke; a tímida e incomunicável Yukiko; a independente e atrevidamente obscura Taeko.
Totalmente realistas, cativantes, dúbios e completamente fora de uma visão maniqueísta dos comportamentos humanos, Tanizaki foi mestre na criação de suas personagens nesse romance primaveral, essencialmente primaveril.
E se aborda o contexto histórico, a guerra que o Japão trava na China, ou se evoca uma catástrofe natural, o autor fá-lo-á sem nunca perder de vista as suas personagens.
Quando uma terrível enchente devasta grande parte da região de Osaka, quase causando a morte de uma delas, oferece a oportunidade de distorcer a trama de forma impressionante. E quando um tufão sopra sobre Tóquio, é uma oportunidade para destacar a deterioração financeira de Tsuruko, cuja casa medíocre quase desaba sobre a sua família.
Ler as páginas desse belíssimo romance é como assistir uma peça teatral cujo cenário tem um obi estridente, um ronronar de um gato e uma sala de tatame onde as irmãs cortam as unhas dos pés umas das outras.
Os dias são tecidos como um quimono colorido, as risadas e as conversas aleatórias, as mortes tristes de pessoas queridas. O recado que sempre chega para a terceira irmã, a solteirona do clã, que o tempo passa e você não será uma mulher bonita para sempre.
Uma nuvem de flores de cerejeira com flocos de neve esvoaçantes e uma noite escura onírica de caça a vaga-lumes foi de uma descrição poética inigualável. Tanizaki conseguiu me transportar para essa ilha de minha imaginação foi evocada com maestria e empolgação.
Os momentos e as lembranças felizes dessa ocasião ainda perduram comigo. É uma história que muda de cor aos poucos cada vez que você a lê, que é ao mesmo tempo comovente e triste.
Um doce pôr do sol a sombra de um passado próspero, o apito do trem e as lembranças das irmãs gentis, elegantes e floridas. Por alguma razão, é tão efêmero. Talvez, por isso mesmo seja tão singularmente belo e implacavelmente efêmero.
🇯🇵🏔☕️📖🍒❤️🩹🕰⌛️