“Que tal um apocalipse sem motivo?” Lhes apresento um: Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras. Aqui, não há aviso, vírus, guerra ou profecia. Há apenas Davi — publicitário de meia-idade, morador de uma grande metrópole brasileira, casado, com filhos, e um tanto quanto blasé — despertando certo dia em um mundo completamente vazio. Sua esposa, seus filhos, os vizinhos, a cidade inteira evaporam, deixando apenas pequenos montes de roupa como último vestígio de que um dia existiram. Foram abduzidos? Arrebatados? Não sabemos. Não há explicação. Após o choque inicial, Davi faz o impensável — mas também o mais humano: aproveita. Ele nunca gostou muito de gente mesmo. A princípio, é quase um paraíso: pode ir onde quiser, pegar o que quiser, sem filas, sem trânsito, sem testemunhas. Tudo é acessível, livre, ilimitado. No entanto, em algum momento, seu ser social, esse que é incutido dentro da gente, começa a se ressentir daquele novo mundo. Depois de aprontar muito pela cidade vazia, surge o sentimento mais primal e aterrador que existe: a solidão verdadeira — não a de “sentir-se só entre milhões”, mas a de literalmente não haver ninguém. E é justamente aí que o protagonista descobre uma nova face do vazio: “quando havia muita gente enchendo seu saco, Davi concordava plenamente que “o inferno são os outros”. Agora que está sozinho, descobre amargurado que o inferno também é a ausência dos outros.”
Há de se destacar que, à primeira vista, ‘Sozinho no deserto extremo’ parece seguir a trilha conhecida das histórias em que sobra apenas um humano no mundo — um ponto de partida interessante, mas nada inédito. O leitor pode entrar esperando uma narrativa movida pela investigação do mistério: o que aconteceu? Para onde todos foram? Haverá mais sobreviventes? Mas Luiz Bras rapidamente subverte essa expectativa. O enigma do desaparecimento não é o centro da obra; é quase um ruído de fundo. O que realmente importa é acompanhar o desmoronamento interno de Davi e observar o poder aterrador da solidão. No fim, a grande pergunta que o livro coloca não é “como o mundo acabou?”, mas “o que resta de nós quando não resta ninguém?”.
No entanto, mesmo sem se preocupar em explicar o desaparecimento da humanidade, o autor planta pitadas de mistério suficientes para manter nossa curiosidade sempre desperta — e são interessantes o suficiente para me deixar com água na boca por mais respostas, mesmo sabendo que elas nunca virão. Esses detalhes evitam que o livro se torne apenas uma longa caminhada melancólica, sustentando uma tensão sutil entre capítulos que poderiam ser monótonos, mas não são. E é aí que o estilo de Bras brilha: narrativo, descritivo, por vezes poético, ele brinca com o leitor, conduzindo-nos por cenas que oscilam entre contemplação, inquietude e delírio.
E é também por isso que ‘Sozinho no deserto extremo’ é um livro sobre tédio: o esvaziamento total da experiência humana quando não há mais sociedade, mais rotina, mais risco, mais diálogo. Diferente de tantas ficções pós-apocalípticas que transformam o fim do mundo em aventura, survivalismo ou fantasia heroica, Bras opta por mostrar a verdade incômoda: em um mundo realmente vazio, tudo é longe demais, inacessível demais, desligado demais. Os carros param, a energia falha, a cidade se torna um labirinto morto. A leitura acompanha essa sensação. Às vezes é arrastada — e deve ser. O livro nos obriga a sentir o que Davi sente: o tempo escorrendo sem sentido, o peso do silêncio, a lentidão de dias idênticos.
Narrativamente falando, ‘Sozinho no deserto extremo’ é estruturado como se não houvesse ordem cronológica. Os cem dia que acompanhamos do protagonista são misturados sem nenhum critério aparente. Os capítulos saltam no tempo, misturam momentos, repetem jornadas. Parece desorientador no começo, mas logo entendemos que esse embaralhamento é o próprio estado mental do protagonista: se não existe mais sociedade, calendário ou testemunha, o que significa “um dia”? Como medir a passagem do tempo quando tudo ao redor permanece imóvel? Luiz Bras nos joga dentro dessa lógica, desmontando a expectativa de acompanhar uma progressão narrativa “sobrevivencial”, como acontece na maioria das distopias. Aqui, os dias simplesmente… existem.
Mas o destaque da obra, recheada de inquietações filosóficas e referências culturais, são as divagações de Davi. Privado das distrações e da rotina, Davi faz uma análise da relação desgastada que tinha com a esposa, da sua insatisfação profissional e até das ponderações mais abrangentes sobre os seres humanos e a sociedade. O autor usa o protagonista como um espelho quebrado da nossa própria dependência do outro. Logo descobrimos que, sem o “sistema coletivo de mentes” que estrutura nossa percepção da realidade, até as certezas mais básicas se tornam ambíguas. Como comprovar o que se vê quando ninguém mais está ali para confirmar? Como exercitar a linguagem quando não há ninguém com quem conversar? Para o último ser humano da Terra, até o “penso, logo existo” ganha um pequeno demônio de incerteza. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. Ao mesmo tempo, esse mundo sem hipocrisias impostas pela sociedade, sem máscaras, revela outra face do humano: o primitivismo. Pois também somos bicho, animal enjaulado em convenções, andando de um lado para o outro entre as grades do bom-mocismo. Sem a sociedade, sobra o cerne, o núcleo, aquilo que nos mantém em pé, que nos faz proteger quem amamos, atacar quem nos ameaça. E nesse novo mundo, referências são inúteis. Só o hoje é que vale.
O romance é também profundamente cinematográfico, repleto de imagens memoráveis e referências culturais. Davi, cinéfilo e publicitário, carrega consigo um repertório que, no mundo vazio, não serve para nada — o que reforça ainda mais a sensação de desamparo. Como partilhar cultura quando não há mais ninguém com quem dividi-la?
No fim, entrar nesse livro não é uma experiência confortável. Às vezes cansa, às vezes se arrasta — e tudo isso faz parte da proposta. Quem abraçar essa jornada encontrará uma distopia arrebatadora, mais interessada em nos fazer sentir a solidão e questionar nossa sociedade do que em oferecer respostas sobre o fim do mundo. E há algo especialmente inquietante em viver essa história numa São Paulo real, palpável, cotidiana, sob uma perspectiva de sobrevivência a la brasileira. O apocalipse, aqui, não acontece em centros estrangeiros, desertos míticos ou bases científicas isoladas. Acontece no nosso quintal. E talvez seja por isso que o silêncio que ele deixa para trás ecoe tão fundo. E há um aspecto que não pode passar despercebido: ‘Sozinho no deserto extremo’ prova como a ficção brasileira de gênero — sempre tratada como o “patinho feio” da literatura nacional — é rica, inventiva e capaz de dialogar com o que há de melhor na ficção científica e nas distopias internacionais.