O protagonista deste segundo romance do escritor e jornalista Alexandre Staut é um homem conformado à rotina do trabalho anódino, em repartição pública, e à vida numa cidade provinciana, mesquinha. Enredado no cotidiano sem perspectivas, resta-lhe a companhia dos livros que retira na biblioteca municipal e contemplar o movimento das ruas, as conversas que se perdem no cotidiano, fofocas que se multiplicam como poeira, sempre a partir de um banco de praça. Desenhar mapas e planejar viagens imaginárias não o conforta, mas só amplia a angústia sem remédio, que aos poucos vai corroendo seu espírito, minando os gestos mecânicos e o convívio apagado com colegas de trabalho, espremidos “em relações cordiais, quase matemáticas”, tão estranhos como os passantes que cruzam aleatoriamente seu caminho. A situação desse personagem arredio, ensimesmado, muda inesperadamente com um encontro, na mesma praça onde costuma se refugiar. O homem acabara de deixar o asilo da cidade e queria uma informação de passagem, algo sem a menor importância. A curiosidade, no entanto, os aproxima e o narrador se vê capturado pela história do outro, por seus descaminhos, o corpo macerado por experiências dolorosas, a voz entrecortada pelas tragadas no cigarro de palha. Superado o primeiro momento de rejeição, aquela figura misteriosa, esquisita, revelará segredos da pequena cidade, ocultos sob o manto tranquilizador da hipocrisia. O que parecia um encontro fortuito, torna-se um momento intenso de descobertas e transformações para o narrador. O contato e o confronto com o outro trará uma nova maneira de ver a si próprio e à existência enraizada naquela cidade. Muitas são as provocações do escritor Alexandre Staut com esta narrativa envolvente e inquietante. A começar pela crítica ao comportamento acomodado e passivo de um cidadão comum, incapaz de virar o jogo da mesmice e assumir seu papel de sujeito. Por outro lado, está o desnudamento de uma sociedade conservadora, típica do interior brasileiro. Como nas cidades fictícias de grandes autores latino-americanos – Juan Rulfo, Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti – também ocorre neste universo aparentemente tranquilo idealizado por Staut a representação de nossas mazelas e belezas.
