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    Cardenio entre Cervantes e Shakespeare - História de uma peça perdida

    Roger Chartier

    Civilização Brasileira
    2012
    294 páginas
    9h 48m
    ISBN-10: 8520011381
    Português Brasileiro
    3.3
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    Como ler um texto que não existe, representar uma peça cujo manuscrito se perdeu e o autor não se sabe ao certo quem foi? É o enigma trazido por Cardenio - uma peça representada na Inglaterra pela primeira vez em 1612 ou 1613 e atribuída quarenta anos mais tarde a Shakespeare (e Fletcher). Sua trama é de uma "novela" inserida em Dom Quixote, obra que circulou nos grandes países da Europa em que foi traduzida e adaptada para o teatro. Na Inglaterra, o romance de Cervantes era conhecido e citado, antes mesmo de ter sido traduzido em 1612 e de inspirar Cardenio. Retraçar a história dessa peça conduz, então, à indagação sobre o que foi, no passado, o estatuto das obras consideradas hoje canônicas. O leitor descobrirá aqui a maleabilidade dos textos, transformados por suas traduções e suas adaptações, pelas migrações de um gênero a outro e pela significações sucessivas que seus diversos públicos construíram.

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    Aguinaldo Medici Severino picture
    Aguinaldo Medici Severino12/05/2015Resenhou um livro
    3 (Bom)

    cardenio entre cervantes e shakespeare

    O 23 de abril de cada ano é um comemorado pelo mundo por vários motivos, talvez o mais interessante pelo fato de uma "quase" coincidência: ser a data da morte, em 1616, de dois sujeitos bem conhecidos: Miguel de Cervantes e William Shakespeare (o "quase" fica por conta do inglês ter morrido sob a vigência do Calendário Juliano na Grã-Bretanha, o que gera uma diferença de 11 dias entre uma morte e a outra, ou seja, cronologicamente falando, Cervantes morreu primeiro). O 23 de abril deste ano é um tanto mais especial por tratar-se do quadrigentésimo quinquagésimo ano de nascimento de Shakespeare. "Cardenio entre Cervantes e Shakespeare" é um detalhadíssimo trabalho acadêmico sobre uma peça (perdida) de Shakespeare que (se realmente existiu e se de fato foi escrita por Shakespeare) devia ser baseada em uma história que originalmente faz parte da primeira parte do Don Quixote, ou seja, trata-se de uma peça que deve muito aos dois escritores ou, ao menos, indica que provavelmente Shakespeare inspirou-se no livro de Cervantes para a composição de uma de suas peças. Trata-se de um meticuloso trabalho de historiador, não exatamente de um literato ou dramaturgo. Há centenas de notas de rodapé, transcrição de dezenas de trabalhos, citações e textos de terceiros (transcrições que somadas devem tomar pelo menos uma terça parte do livro). Boa parte do livro dá conta de como a "A história de Cardenio" cervantina influenciou diversos autores e foi encenada e/ou adaptada centenas de vezes na Espanha, na França e na Inglaterra desde a publicação original do Don Quixote. O curioso é que se a peça Cardenio realmente existiu ela não sobreviveu fisicamente, nunca foi impressa, seu texto nunca fez (nem faz) parte do cânone shakespeariano aceito como tal pelos especialistas em sua obra. Em seu trabalho Roger Chartier demonstra: (i) que há registro de uma peça nominada Cardenio ter sido encenada pela companhia teatral londrina King's Men em 1613 (e que Shakespeare era sócio desta companhia); (ii) que um registro de 1653 de um editor londrino, Humphrey Moseley, cita explicitamente que dentre as peças de Shakespeare deve ser contabilizada uma peça escrita em colaboração com John Fletcher (que viria a ser o sucessor de Shakespeare nos negócios da companhia após a morte deste último, em 1616); (iii) que em 1727 um editor das obras de Shakespeare, Lewis Theobald, encena uma peça de sua autoria chamada "Double Falshood or the Distrest Lovers" e a publica dizendo tratar-se de uma adaptação do Cardenio original; (iv) que em 1990 Charles Hamilton, um especialista em manuscritos, publicou um artigo afirmando que a peça "The Second Mainden's Tragedy", impressa em 1611 e usualmente atribuída a Thomas Middleton era na verdade o Cardenio shakesperiano perdido. Desde então, sobretudo na última década, várias montagens de algum Cardenio (sempre atribuído a Shakespeare) têm sido produzidas, inclusive pela Royal Shakespeare Company. Roger Chartier não está propriamente preocupado se os vários textos atribuídos a Shakespeare foram falsificados, abreviados, reescritos ou não. O que ele discute basicamente no livro é a noção contemporânea de literatura; o processo moderno (pelo menos desde o final do século XVIII) de reconhecer nos autores das produções textuais uma força criadora original e independente; a existência efêmera e fortuita de qualquer obra dos homens; o fato de que cada leitor do passado leu, viu peças, lutou em guerras e viveu seguindo códigos e hábitos que não são mais os mesmos que os nossos. Há muito de instigante nesse livro. Talvez a pergunta mais curiosa de Chartier seja o porquê de uma adaptação de uma parte do Don Quixote prescindir de incluir nela justamente o personagem Don Quixote. Mas nada disso importa realmente. Felicidades para você que gosta de livros nesse dia do livro, nesse dia de festejar a literatura. Evoé. [início: 29/07/2013 - fim: 23/04/2014] "Cardenio entre Cervantes e Shakespeare: História de uma peça perdida", Roger Chartier, tradução de Edmir Missio (revisão técnica de Andrea Daher), Rio de Janeiro: editora Civilização Brasileira (Grupo editorial Record), 1a. edição (2012), brochura 15,5x23 cm., 294 págs., ISBN: 978-85-200-1138-6 [edição original: Cardenio entre Cervantès et Shakespeare: Histoire d'une pièce perdu (Paris: Gallimard) 2011]

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    Roger Chartier

    Roger Chartier é um influente historiador francês, vinculado à quarta geração da Escola dos Annales. Professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales com uma vastíssima obra publicada, especialmente na área da História da Cultura, história do Livro e da leitura na Europa. Também é professor emérito no Collège de France e professor catedrático da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, na França; professor visitante na Universidade da Pensilvânia nos Estados Unidos. Recebeu, em 1990, o prêmio da Associação Americana de História da Imprensa e o Prêmio Gobert de História da Academia Francesa, em 1992.Dentre suas distinções acadêmicas estão o título de Doutor honoris causa na Universidad Carlos III de Madrid, o título de Fellow da British Academy e a presidência do Conselho Científico da Biblioteca Nacional da França.

    18 Livros
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    Roger Chartier