Princípios fundamentais da história da lingua -

    Hermann Paul

    Fundação Calouste Gulbenkian
    1983
    458 páginas
    15h 16m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
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    Christianne de Menezes Gally25/08/2016Resenhou um livro
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    Com o objetivo de mostrar em pormenor que “em todos os campos da vida da língua é possível uma evolução suavemente graduada e esta graduação suave mostra-se, por um lado, nas modificações sofridas pela linguagem individual, por outro lado, no comportamento recíproco das linguagens individuais” (p.41), o autor propõe uma ciência de princípios fundamentais para analisar as modificações (ou alterações) na língua, objeto de contemplação histórica – somente através da história seria possível uma descrição exata de uma língua. Utilizando os princípios da psicologia – “cada criação linguística é sempre obra do indivíduo” (p.25) – e da fisiologia (em menor proporção), duas das ciências exatas experimentais, Hermann Paul, que era um neogramático, analisou os problemas de mudança fonética e mudança semântica. Apesar de não ter certeza do melhor caminho para estudar a engrenagem das várias forças e de como elas dirigem as mudanças nos vários aspectos da língua, ele acredita que o método especulativo da evolução trará esclarecimentos da questão dos princípios, uma vez que “a utilidade maior ou menor das formas criadas é determinante para a conservação ou desaparecimento das mesmas” (p.40). Depois de estabelecer a diferença entre a gramática histórica – “gramática meramente descritiva (...) que investiga a continuação da evolução baseando-se num ponto de partida que lhe é transmitido pela tradição” (p.33) – e a gramática comparativa – “ocupa-se das relações mútuas de famílias de línguas aparentadas” (idem) –, defende a ideia de que “o verdadeiro objeto para o investigador da língua é antes constituído por todas as manifestações da atividade da fala em todos os indivíduos na sua ação recíproca”. (p. 34). A tarefa do historiador, portanto, estaria não só em descrever os organismos psíquicos – organismos de grupos de ideias que dizem respeito à língua, desenvolvidos em cada indivíduo de forma particular –, como também dar “uma ideia exata das relações deles uns com os outros, da sua intensidade relativa, das diversas associações que se produziram entre eles, do grau de estabilidade destas associações e até que ponto estão ligadas” (p.37). Assim, aspectos como a mutação fonética – produção de algo diferente através de uma substituição repetida –, mutação semântica – produzida por um desvio no emprego que cada indivíduo faz da significação usual (“todo o conteúdo ideológico que se relaciona com uma palavra para os indivíduos de uma entidade linguística” p.83) –, analogia – tendência da língua em uniformizar-se –, modificação sintática, contaminação –“processo segundo o qual dois sinônimos, ou expressões de qualquer modo aparentadas, se imiscuem no consciente de tal forma que nem uma nem outra pode impor-se em toda a sua pureza, e uma nova forma surge, na qual se misturam elementos duma com elementos doutra” (p.171) –, criação espontânea – cuja essência consiste “em relacionar um grupo de sons com um grupo de ideias, formando este a significação daquele...” (p.190) –, isolação – conservação de “velhos elementos (...) agrupados de forma diferente em conseqüência de uma transformação sofrida pela forma fonética ou pela significação ou por uma coisa e outra” (p.203) –, são descritos com exemplos abundantes da língua alemã. Alguns aspectos são curiosos neste trabalho: um deles refere-se á questão do luxo na língua: “a língua não tende para o luxo” (p. 267). Ao tratar sobre a abundância das formas criadas na evolução da língua, mais especificamente na linguagem corrente usual, ele afirma que tal abundância mesmo que inevitável, “é também incapaz de se manter por muito tempo” (idem). Outro aspecto refere-se à análise da relação entre as categorias gramaticais de gênero, número e tempo e a categoria psicológica. Para ele, “toda a categoria gramatical se cria com base numa categoria psicológica”(p.279). Assim, a base, por exemplo, “para a criação do gênero gramatical é constituída pela diferença de sexos natural dos seres humanos e animais” (idem), e quando atribuímos o gênero para propriedades e atividades, o fazemos por “analogia com a personalidade humana”(p.280). Essa discussão será revisitada pelos estruturalistas mais tarde, modificando este princípio. Importante para análise posterior é o capítulo que trata da divisão das partes do discurso (p.373). Para ele, “a divisão normal das partes do discurso (...) não se baseia em princípios lógicos consequentemente seguidos...” (p.373), até porque seria impossível organizar um sistema rígido de divisão lógica. Para a divisão usual, três pontos foram levados em consideração: “a significação da palavra em si, a sua função na estrutura da oração, o seu comportamento no que se refere à flexão e à formação de palavras” (idem). Depois de apontar as falhas nesta divisão, propõe a divisão baseada na flexão: “esta divisão faz-se em três classes principais, nomes, verbos e palavras sem flexão...” (p.375). É também neste capítulo que se tratará das preposições e conjunções sob o ponto de vista histórico. Além desses pontos, o autor aborda a questão da língua falada e da língua escrita, observando as vantagens e desvantagens de se adotar esta ou aquela forma para os estudos linguísticos. Por último, e talvez assunto a ser explorado posteriormente, é curioso o fato de o autor criticar sempre que possível o trabalho de Wundt, discípulo de Humboldt que desenvolveu estudos de psicologia linguística e psicologia nacional (cf. ROBINS, R.H, 1983). Será que parte dos princípios propostos por Paul foi construída para atacar Wundt? Certo é que os Princípios fundamentais da história da língua, obra publicada no século XIX, constituem um estudo valoroso acerca da evolução das formas linguísticas e base para os estudos da linguística histórica.

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