Céu de Allah -

    Malba Tahan

    Conquista
    1960
    221 páginas
    7h 22m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

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    italo frança04/09/2020Resenhou um livro
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    Sob o Céu de Allah

    A proposta de Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan, é interessante, já que buscou em Céu de Allah adornar suas narrativas de cheiro, gosto e cor de oriente médio. É um livro com contos pequenos, muito bons para ensinar a crianças. Ali, numa linguagem simples, contam-se histórias que se passam no oriente, as quais revestem-se da sabedoria e da mística muçulmana. Além disso, o autor faz, através de seu heterônimo, todo um trabalho de ficção. Desde seu nome até a ideia de que seus escritos foram traduzidos direto do árabe, encontra-se ali a ideia de exótico - voltaremos a isto - que permeia o texto. No entanto, encontram-se nos livros problemáticas relacionadas desenvolvimento das narrativas, além de outras esperadas para um autor que, ao fim e a cabo, não está imerso na religião islâmica ou no mundo árabe. Comecemos por uma análise geral das narrativas do livro. Na sexta edição do livro - a edição que tenho e que cuja data não sei, mas que certamente é anterior a 1947 - existem ali 20 narrativas. O ambiente de todas elas é o mundo árabe, adornado com expressões muçulmanas, como o Basmallah, imagens do wudu, do salat, de masjids etc. Então, basicamente, o ambiente está dentro do propósito do livro, e muda pouco ou quase nada, variando entre as ruas de Bagdá e comunidades muçulmanas da Índia. O tempo, por sua vez, parece sempre remeter a um passado distante. Malba Tahan concentrou-se em passar uma imagem distante do mundo árabe - não somente distante topograficamente, como também cronologicamente, o que reforça, em seu livro, a ideia do exótico. O narrador sempre é o mesmo, o padrão de terceira pessoa, onisciente, comum em narrativas orais que marcam as sociedades árabes antigas. Não traz nada de novo no sentido narrativo. Depois do décimo conto, o leitor já sabe o que esperar e, muito provavelmente, desanime em ver mais do mesmo. Suas personagens são sempre planas. Ainda que exista em uma ou outra personagem uma surpresa ou um mistério, elas sempre acabam por se comportar da mesma maneira. Tudo parece um personagem só, e não só em termos de descrição da ação, mas também em linguagem. Não raro se veem exclamações por demais forçadas: Por Allah! Pelas barbas de Mahomet! Pelas barbas de mil profetas! Isso tudo não só enjoa como dá ao leitor a sensação de estar lendo uma coisa artificial. Claro, as exclamações fazem parte da retórica árabe, e se encontram até em textos corânicos, como em suras como Al-Chams, A-Lail, Ad-Duha, At-Tin etc. Mas são contextos absolutamente diferentes. Malba Tahan faz parecer que todo árabe conversando é uma sura do Al'Quran, o que não só não é verdade, como até mesmo há distância entre o árabe corânico (fusha) e o árabe coloquial. O enredo parece, também, ter sido feito em alguma fôrma, pois, embora as histórias mudem, o procedimento é sempre o mesmo. Inclusive a coisa se torna tão previsível que sempre já imaginamos o desfecho. Existe também no livro uma tentativa de colocar em cada história um efeito moralizante. Isso, provavelmente, nasce da ideia de que todo árabe é um ser exótico com muita sabedoria, imerso em pergaminhos. Passando agora para o conteúdo em si, o que Júlio César de Mello e Souza não poderia, claro, chegar a um senso, até porque não estava imerso no mundo árabe. Ora, todo o livro faz jus à imagem equivocada de que o mundo árabe é exótico. Tudo está sempre permeado de exotismo. Isso foi um erro grotesco por parte de Malba Tahan, já que se queria um autor árabe. E não só isso. Durante o livro se encontram erros graves sobre a crença islâmica, trocando o nome do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) por Mahomet, e repetindo isso de maneira fatigante. Em contos como "Os gestos" e "A lenda de Frei Rogério", Malba Tahan parece se usar do exoterismo islâmico pra pregar um cristianismo semi-medieval. Inclusive as personagens cristãs são romantizadas. Sobre a ideia do Oriente como exótico, acho que certamente o Edward Said tem mais a dizer do que eu. O que posso aproximar aqui é que parece que Malba Tahan recria um Oriente de senso comum para ensinar as bem-aventuranças e valores cristãos. O Oriente distante passa uma sabedoria desconhecida - que, na realidade, nos é muito conhecida e que, se passada como conhecida, seria desacreditada. É aquela ideia do guru que vem de longe para passar uma mensagem que as pessoas já sabiam, e elas ainda assim ficam embasbacadas, só por ele vir do estranho, do outro, do exótico. Dito isso, dou nota 3/5. O público infantil, apesar de todos os pesares listados aqui, certamente se divertiria com as narrativas que, embora por demais simples, podem causar um momento de divertimento.

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