João Alphonsus foi o contista mais original do modernismo brasileiro. Dono de um estilo leve e envolvente, como uma boa prosa de mineiro, e de um humor suave, de corrosão mínima, escreveu dois romances (Totônio Pacheco e Rola Moça), poesias (apenas na mocidade) e alguns ensaios, mas as suas preferências iam para a história curta. Em um depoimento de 1942, reproduzido por Afonso Henriques Neto no prefácio aos Melhores Contos João Alphonsus, o autor admite que os seus momentos mais plenos de realização literária estão nos meus contos, gênero que me atrai e satisfaz quase que exclusivamente, tentador e difícil, mas tão compensador quando se consegue alguma coisa que nos pareça verdadeiramente realizada. Terceiro dos 15 filhos do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, João provou desde cedo o suave veneno da literatura. Começando a escrever na adolescência, aos 20 anos já tinha um excelente domínio da arte de escrever. É dessa época (1922), o seu primeiro conto digno desse nome, Pesca da Baleia, que serviu de título a seu segundo livro no gênero, publicado em 1941. O primeiro, Galinha Cega, havia saído dez anos antes. A obra do contista - doloroso como os russos e conciso como os franceses, segundo José Lins do Rego -, foi completada com Eis a Noite! (1943). No ano seguinte o escritor morreu, em Belo Horizonte, aos 43 anos. O que de imediato desperta a atenção do leitor dos contos de João Alphonsus é a simplicidade, a sua cruel desmontagem do ridículo e da insatisfação pequeno-burguesa (Carlos Drummond de Andrade), a recusa a qualquer efeito dramático proposital, daqueles que o escritor tira da manga para comover o leitor, e a sua mal disfarçada piedade por todos os seres vivos. Foi um grande amigo dos animais e as suas histórias de bichos permanecem insuperáveis, em nossa literatura.

