Jamie Delano deve ser um dos mais injustiçados escritores ingleses de quadrinhos, mas que ajudou a definir o selo vertigo da DC. Ao contrário de Alan Moore, muitas vezes considerado o melhor de todos os tempos, e Neil Gaiman, autor do mega hit Sandman Delano raramente é lembrado como importante. Mas foi ele, me parece, que definiu a alma da vertigo ao dar vida e densidade a John Constantine. E isso ao ter a inglória tarefa de corresponder às expectativas dos editores e leitores por ter sido indicado pelo próprio criador do personagem: Alan Moore. Já escrevi sobre Hellblazer e acho que o maior mérito de Delano foi saber usar as histórias de horror, que era o que se esperava de uma HQ com temática adulta na época, para fazer um retrato fiel à Inglaterra, e de modo geral, todos os anos 80. A sua marca pessoal é a capacidade de apreender o período que está vivendo e mostrar suas mazelas. Ou seja, uma forte capacidade de fazer crítica social, sem deixar de ser uma leitura agradável.
Hell Eternal foi para mim uma leitura espetacular. O mesmo olhar agudo, dessa vez nos anos 90 americanos, com sua desolação e fascínio pela autodestruição. Basta ver o que eram as bandas grunge e seu flerte com a morte (vários deles não resistiram ao fascínio e atravessaram a linha para o outro lado).
Mas o caso desse história, que foi escrita na passagem do século e demorou mais de 10 anos para chegar por aqui, é curioso. Essa tão conhecida característica de Delano está um pouco disfarçada. A América não é ridicularizada, como em Preacher de Garth Ennis, mas aparece muito séria, mesmo quando tenta fazer humor. Uma trama cheia de subentendidos, que precisa ser lida até o final para ser entendida, porque nunca dá uma resposta ou definição sobre os personagens. Por isso, mesmo que tenha gostado muito porque não cansa de mostrar o fetiche que as armas e a violência tem para os americanos, fiquei meio decepcionado por ter que esperar o segundo volume para ter uma opinião mais firme sobre a HQ.
Há sempre a discussão sobre os direitos de acesso às armas como expressão da liberdade individual. Delano já mostrou em Hell Eternal o quanto isso não passa de uma deturpação do conceito de individualismo e proteção de direitos. Basicamente, acreditar que se tem o direito de portar uma arma, que se tem o direito de defesa contra agressores, traz o pressuposto de que o indivíduo, no limite, se opõe à sociedade. É uma completa desvalorização do conceito de comunidade, como se para os americanos ele não passasse de uma falácia ridícula. Não é à toa que tantos estrangeiros se unem em comunidades por lá, porque jamais deixarão de ser considerados uma ameaça, numa sociedade em que todos são vistos assim. E apesar de nunca aparecer de modo claro, o que está sendo discutido é justamente esse individualismo deturpado americano, que faz as pessoas julgarem que precisam se armar para se defender ao mesmo tempo que massifica e multiplica comportamentos infantis e consumistas.
Caso alguém queira saber porque, basta ver a figura dos cowboys, que tentam resolver tudo à bala ou da forma mais violenta possível. As viagens que atravessam o país e antes de significarem uma autodescoberta e aprendizado, levam apenas a mais violência (se viaja agora para fugir, não mais para encontrar). Story Johnson, que aparece em algum lugar depois de ter desaparecido por longos 25 anos e não reconhece essa América atual, como mais dedicado ao diálogo do que às armas tem uma fala interessante em certo momento: os intelectuais podem parecer inúteis para esse tipo de pessoas, mas tem o poder de fazê-las perder o chão...
E é assim que Delano mostra que os ideais de liberdade e justiça, que embalaram gerações, se tornaram apenas um apelo cínico no discurso dos poderosos. O caminho foi perdido em algum momento e hoje se tornou mais uma piada,dentre tantas outras que os americanos sabem produzir em série.