Eucanaã Ferraz é da nova geração, mas já fez e fará muito. É a sensação que se fixou em minha cabeça após ler,com alguma reticência esse admirável exemplar de sua autoria: "Sentimental". O poeta é contemporâneo, mas não pára (dane-se essa reforma ortográfica. O verbo vai acentuado mesmo). Ele publicou, entre outros, os livros “Martelo” (1997), “Desassombro” (2002 - Prémio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, para melhor livro de poesia), “Rua do mundo” (2004) e “Cinemateca” (2008). Os três últimos livros foram editados em Portugal. Para a infância, publicou “Poemas da Lara” (2008) e “Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos” (2009). Organizou, entre outros, em terras lusitanas dois livros de Caetano Veloso, um de letras, “Letra só” (2003), e outro com textos em prosa, “O mundo não é chato” (2005, Famalicão: Quasi Edições, 2007); reuniu poemas e letras de canção na antologia “Veneno antimonotonia – os melhores poemas e canções contra o tédio” (2005); depois de preparar a “Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes” (2004), passou a coordenar a edição das obras do poeta no Brasil (Companhia das Letras) e em Portugal (Quasi Edições); publicou, na coleção Folha Explica, o volume “Vinicius de Moraes” (2006).
Não é pouco. Merece registro. Aqui, em sua última peripécia poética, destaco o enfoque narrativo, a volúpia das sinestesias e um acento bem-vindo da ironia e de um aceno fraternal (vide o lindo e sutil poema em homenagem ao amigo Antonio Cicero e deferência in memorian prestada a Murilo Mendes, dentre outros colegas de ofício). No mais, são imagens inusitadas que, justapostas, embaralham a imaginação, sem desmentir o rigor que o tempo, inclemente, cobra de todos nós. A condição efêmera também é abordada; sim, há palavras que não fogem ou capitulam diante da morte, mas não perdem de vista a nesga do sonho que pode vir e é justamente por essa porta levemente entreaberta, que capturam com amorosidade e um tanto quanto de sarcasmo o passado que, sendo parte vital da memória, faz-se fênix, persiste e consegue anunciar o presente "para cantar com você / depois de uma vida inteira cantando para você" (p. 23). Do sabor sentimental há esse canto, e a esperança de que ele se renove.
Em alguns versos uma gravidade leve e quando a acidez parece dominar a página, o poema enuncia uma capa de ironia como resistência para abolir a tristeza ou a monotonia. Eucannã não me parece ser um desses que creem na eternidade dos amores, e nem por isso ele se dá ao luxo de abandonar uma nostalgia, esse encanto do estilhaço de luz amorosa. O poeta não entrega os pontos, apesar da cicatriz, com seu horário cavernoso. A convivência desses paradoxos é sutilmente bem trabalhada pela sensibilidade e acuidade poéticas deste jovem e ativo autor que, na plenitude do seu processo criativo, não se encaixa no caldo morno da poesia brasileira contemporânea, que - perdida - tenta assumir um tom ora panfletário ou digno de uma complexidade ou coexistência com o coloquial, que na verdade reflete um descompasso e um aporte para o mediano de poetas que mal sabem para qual lado virar-se.
Não é o que acontece com este "Sentimental", cujo sumo poético nos dá a impressão de que existem vinhos, copos, um encontro, a letra para tilintar a sangria e que, não obstante todos esses ingredientes, o ritmo geral do encontro amoroso não garante o "o rigor da simetria": [...] devia ser maio a cor que nos desenhava/Só o ar nos vestia/de uma vida mais leve/que ele". Ou para identificar essa assombração já antevista por Carlos Drummond de Andrade, também refletida pelo poeta carioca, fiel e à sua maneira: "Amor só vem mais tarde, amar/só vem depois, amor é quando /tudo se foi, virá no próximo/ trem, talvez no ano que vem/tudo será, por ora, pressentimento,/ presságio, bilhete em branco do bem/ gratuito para depois de gastos vultuosos/ tributos de desamor e de nada. /Amarmos começa no fim? Amor /se escreve ao contrário? Roma, /porém, não abrirá palácios senão, /quem sabe, no próximo feriado. /Moroso, é após tudo pronto /o amor quando, tardiamente,/ já não damos por nada ou /damos só tempo ao tempo." É este tempo oco, temido e angustiado, bem característico de uma era pontuada por amores líquidos que se liquefazem na primeira nuvem; em que encontros fugazes formulam tecnologias incontáveis, eis o tempo rechaçado pelo poeta, ou por quem luta para ser ou ter alguma memória genuinamente sentimental.