Lançado em 2000 por Nathaniel Philbrick, No Coração do Mar estrutura todos os trágicos e soturnos acontecimentos que a tripulação do barco baleeiro Essex vivenciou em novembro de 1820; quando foi abalroado por um cachalote enfurecido afundando rapidamente.
O livro foi escrito por um historiador, portanto, toda a história da colonização de Nantucket pelos ingleses, que começaram a chegar em 1659, assim como suas primeiras atividades na ilha como fazendeiros e criadores de ovelhas, e logo depois, o desenvolvimento do porto de navios baleeiros é magistralmente apresentado ao leitor, no início da leitura, como uma verdadeira aula de história sobre a colonização da ilha e dos nativos (os wampanoag).
E não somente isso, o autor também discorre sobre; a economia, a religião, línguagem, as tradições, costumes e até mesmo sobre a vida íntima dos ilhéus.
Nathaniel lista os acontecimentos no Essex, meses antes do trágico ataque e o que houve depois, pelo relato escrito de Thomas Nickerson, que aos 14 anos embarcou no baleeiro como camareiro, e também de um livro escrito por Owen Chase, o primeiro imediato da embarcação.
Se a caça às baleias já não fosse bárbara e cruel o suficiente, a narrativa se torna angustiante quando o autor fala da passagem do Essex por Galápagos, na ilha Charles, falando da terrível caça às tartarugas e o incêndio criminoso perpetrado por uma pessoa de seu próprio grupo: "o fogo matou milhares de tartarugas, pássaros e cobras."
Logo depois a leitura torna-se, absurdamente, mais horrível e desesperadora no momento que um macho colossal dos cachalotes, uma criatura conhecida por seu caráter inofensivo, ataca o navio baleeiro a ponto de soçobrar (naufragar) a embarcação, deixando a tripulação em pequenos botes à deriva no Oceano Pacífico.
Além do naufrágio e da situação alarmante desses homens é impossível não pensar no que teria sido diferente se o Capitão Pollard não tivesse cedido não uma, mas duas vezes aos argumentos de seus imediatos (Chase e Joy). A desinformação, superstição, com relação a tudo que estivesse além da experiência imediata, e o conservadorismo dos quaker de Nantucket; os fizeram navegar contra o vento fazendo uma travessia inevitavelmente oblíqua de milhares de quilômetros para o meio do nada em busca de alcançar a América do Sul ao invés de seguir para as Society Islands que estava, obviamente, mais próxima e por onde calhou de passarem ao largo, na terceira semana a bordo dos botes, e que com alguns ajustes na rota teriam chegado ao Haiti.
No Coração do Mar traz um relato assombroso, aflitivo, atormentador e excruciante. Vinte homens divididos em três botes fazem de tudo para sobreviver: inclusive praticar a inversão mais aterradora da ordem natural.
Essa é uma leitura completamente chocante e perturbadora, que testa os limites do provável e humanamente possível, nos fazendo pensar no que somos capazes de fazer para sobreviver diante de uma situação semelhante: perdidos em um mar vazio e sem limites.
O autor escreve muito bem, com uma riqueza de detalhes e apontamentos maravilhosos e ainda traz explicações e referências, que só fazem somar, para um aprofundamento na história de náufragos que sobreviveram ao longo da história da navegação. Nathaniel Philbrick fez uma esplêndida pesquisa histórica e conseguiu com seu livro, No Coração do Mar, recapitular não apenas a história desses homens e seu navio atacado por uma baleia, mas discorrer sobre um período histórico onde a baleação (caça às baleias) era a atividade central da economia tanto de Nantucket quanto de muitos países, sendo de suma importância para a manutenção da sociedade da época.
Chase, o primeiro imediato, apesar de ter contribuído muito com a tomada de decisão que os levariam para "os braços da morte" também foi um porto seguro para os homens que estiveram com ele no bote, os estimulando e tornando a esperança, para todos, a única coisa que restava entre eles e a morte.
O fato de que os primeiros quatro homens a serem comidos foram afro-americanos também é uma parte do livro que suscita reflexões e sentimentos ambíguos.
O relato das angústias e sofrimentos que esse grupo de homens enfrentou, me despertou inúmeros sentimentos contraditórios durante a leitura, me causando: náuseas, aflição, repulsa e um pesar imenso no coração pela tragicidade dessa história perturbadora e complexa.
Recomendo para todos o impactante relato dessa tragédia marítima.
Obs.: A viagem de Shackleton é citada no livro e eu gostaria, mais uma vez, de indicar esse livro maravilhoso da história real de uma aventura marítima digna de cinema com um herói admirável e verdadeiro.