O caso eu conto, como o caso foi: (Esta América #V.6) - Da coluna Prestes à queda de Arraes

    Paulo Cavalcanti

    Alfa-Omega
    1978
    409 páginas
    13h 38m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    "No curso desses 50 anos, da passagem da Coluna Prestes pelos sertões nordestinos, em 1926, eu, menino, extasiado diante de tantos exemplos de bravura, até o ano de 1976, data de minha undécima prisão por motivos políticos - a derradeira? -, intercalo as agitações de cada época, as "revoluções tenentistas" dos anos 20 e 30, a campanha da Aliança Liberal, a morte de João Pessoa, os movimentos grevistas e operários, o "Estado Novo", a queda da ditadura de Vargas, o assassinato de Demócrito de Souza Filho [...] numa gama sucessiva de acontecimentos da maior atualidade, expondo-os sem interpretá-los, o que seria motivo, não de um livro de memória, mas de um ensaio psicológico."

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    Arsenio Meira15/08/2013Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    E contou tudo. Com dignidade. Um jorro de luz literária sobre o obscurantismo

    Não faz nem tanto tempo que resolvi passar os olhos nas minhas queridas estantes, e deparei-me com um exemplar antigo: "O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas", do escritor, advogado e jornalista Paulo Cavalcanti, que faleceu em maio de 1995 em Recife-PE, pouco depois de completar 80 anos. Paulo também foi firme intelectual. Justo e generoso. É de sua lavra a obra "Eça de Queiroz: agitador no Brasil." O livro, publicado em 1959, ganhou certa fama nacional ao ser premiado pela Academia Pernambucana de Letras e após críticas favoráveis nos jornais do Rio de São Paulo. Mas o livro que imortalizou Paulo foi "O caso eu conto como o caso foi." Li de uma tacada só, lembro-me bem. E lembro que por um momento cheguei a acreditar no ser humano, não obstante as atrocidades que Paulo denuncia em suas memórias. O livro é uma saga pessoal, é um painel do Brasil e, obviamente de Pernambuco. Quem quiser conhecer nossa história recente, torturadores, lutadores, camponeses, o panorama político, os personagens cruciais e as conseqüências e as raízes do golpe militar , é só adquirir a obra. Com uma riqueza de detalhes que impressiona e um dinamismo que imprime à narrativa o sabor de um romance dramático, é um Clássico da literatura memorialística. Mesmo vigiado pelo ignominioso Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS), Paulo não titubeava e atuava como advogado da chamada “cúpula comunista” – a direção estadual do PCB, os líderes da liga camponesa e a direção dos sindicatos de trabalhadores. Desse amontoado de personagens, o leitor pode incluir os presos políticos Gregório Bezerra, Miguel Arraes, e Pelópidas da Silveira, todos acusados de subversão e especificamente Gregório, que foi seviciado por covardes e sobreviveu como que por um milagre. Convém lembrar que naqueles idos, não havia garantia para nada e para ninguém. Nesse período, nada adiantaria a Paulo consultar códigos e leis, pois a violência era chancelada exatamente pela “lei”, que promulgada às pressas, “nasceu” para justificar todos os atos de arbítrio da autoridade. Convém não esquecer: várias pessoas, que foram postas em condições desumanas, submetidos na prisão a torturas até ficarem loucas; convém lembrar a defesa produzida por Paulo com destemor em favor deles, um defensor capaz de enfrentar um pelotão, lutando sozinho, em detrimento de sua própria segurança e sobrevivência, para livrá-los das sevícias impostas pela odiosa figura dos Ditadores e do AI-5. A narrativa histórica do livro de memórias de Paulo Cavalcanti, aliada aos fragmentos de sua memória cotidiana, encaminha o leitor para uma forte carga emotiva, da qual Pedro Nava foi mestre, sem com isso torná-la tendenciosa ou inverossímil. O memorialista, um ser humano que nasceu para defender os Perseguidos. Parece-me que era essa foi uma das suas maiores vocações. Muitos podem tomar para si o epíteto de “forte” (que constituía uma das qualidades do seu caráter); poucos, porém, fazem jus ao epíteto de “fiel”, que representava a justeza, ou o senso de justiça que ele imprimia diariamente em cada ato seu. Paulo expôs em suas memórias o conturbado cenário nacional do período pós Estado Novo e pós Guerra, mas é na parte em que narra sua luta para impetrar habeas corpus e outros instrumentos jurídicos vedados pelos milicos e pelo AI-5, que sua figura se agiganta. Lateja em cada página a sua resistência a qualquer ruptura da legalidade, e daí em diante se elucida todo um painel histórico de forma simples e até coloquial, sem maiores malabarismo, porém com feições de pesquisa acadêmica. Lida e relida, a obra de Cavalcanti afigura-se cada vez mais imprescindível; nela não se permeia nenhum ranço intelectual que sirva de obstáculo ao fácil entendimento. A simples, sincera e pura arte de contar-se e contar a história conforme suas convicções e interpretações. Paulo traçou com a precisão dos cirurgiões a caminhada política de Arraes: do poder a sua deposição. Denunciou com rigor os caminhos do golpe de 64, as prisões e as torturas. Teceu um arcabouço historiográfico sem meias palavras. Paulo Cavalcanti foi, a um só tempo, promotor e defensor, literato, político e chefe de família. Parece que ele veio à Terra talhado para redimir um monte de pobres-diabos. Pois ele era de uma rara organização mental, de inteligência altiva, insubmissa e ao mesmo tempo, generosa e sábia. Um ser humano capaz de despir-se da mais tola das vaidades e de pedir desculpas. Não pensem que tal virtude é vasta ou cultivada entre os seres humanos... Ele não se arvorava como Rei do Sertão. Observava, opinava, mas não conseguia calar-se diante do que lhe parece ser injusto. E ah, sim, falei que Paulo era justo e generoso. Certo dia, meu pai contou-me que um mendigo vivia perambulando pelo Centro do Recife. Ele era cego, e de tanto perambular e chatear os passantes, acabou tornando-se popular. Irritadiço, esse mendigo ensaiava em cada esquina uma briga com o mundo e do alto de sua sabedoria, dava adeus a todos os transeuntes sem motivo aparente. Esse personagem existiu. Vivia no centro do Recife. Um, mais um, dentre os milhares de miseráveis que nos soterram a consciência. No entanto, mesmo diante das suas diatribes, meu pai viu certo dia Paulo Cavalcanti aproximar-se dele. Curioso, deixou-se ficar a observar a cena. Afinal, Paulo já tinha idade e sabe-se lá o que poderia ocorrer nesse mundo virulento e sem prumo. Mas eis que, de súbito, o mendigo acalmou-se. Como que por encanto, o pobre deixara de enxergar em cada transeunte um inimigo, em casa passante um soldado nazista, graças à conversa que Paulo e ele travaram. Posteriormente, meu pai voltou ao local e notou esse personagem trágico menos macambúzio. O mendigo, que devotava sua vida a um permanente estado bélico, já demonstrava na face um princípio de sorriso. Imagino que o autor de "O caso eu conto… ", tenha dito ao nosso personagem palavras fraternas; mas imagino que Paulo também tenha deitado palavras de coragem; que o mendigo deixasse de lado aquela cantilena de despedida, e tomasse tento. Enfim, que resistisse de modo mais objetivo. Cego e altivo, penso que o pobre homem empurrou seu carrinho de rancores ribanceira abaixo. Ainda cego e tonto, o velho sem posses circulou por algum tempo com desenvoltura pelas ruas do Recife. Não tardou e o mendigo aposentou-se. Desapareceu das ruas, vielas, esquinas. Dizem que foi ser vendedor de algodão doce. Outros garantem que ele transformou-se no espectro de um menestrel, e hoje passa a vida num longínquo deserto, vestindo a túnica branca dos que vivem em paz. Apesar da sua aparente insanidade, e dos gestos amistosos que recebia de quase todos que circulavam naquele bairro, a verdade é que só Paulo Cavalcanti enxergou nele um irmão.

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