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    A Boneca de Kokoschka -

    Afonso Cruz

    Quetzal / Bertrand
    2010
    244 páginas
    8h 8m
    ISBN-13: 9789725649039
    Português
    4.1
    34 avaliações
    Leram50Lendo5Querem82Relendo0Abandonos0Resenhas10
    Favoritos6Desejados82Avaliaram34

    O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía quais as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a à ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.

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    Resenhas (10)Ver mais
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    Elisa Munhoz Cazorla16/09/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Uma árvore cai no meio da floresta e ninguém estava lá para testemunhar isso. Ela caiu mesmo?

    Sempre inicio um novo Afonso Cruz com uma expectativa enorme mas, ao mesmo tempo, uma certeza de uma leitura incrível, inesperada, imprevisível que vai me deixar de boca aberta e apaixonada. Nesta obra, assim como nas outras de Afonso Cruz, nos deparamos com personagens impressionantes que nos marcam muito. Temos um garoto judeu que se esconde em um buraco no chão e passa a mancar depois que seu melhor amigo foi morto na sua frente durante a segunda Guerra mundial. Também somos apresentados ao bondoso e delicado senhor vendedor de pássaros que gosta de se sentar debaixo das gaiolas para ouvir o canto dos animais e ouve vozes vindas do chão. Temos um milionário excêntrico que quer descobrir o peso da alma humana e da maldade. Temos também um músico que enxerga os outros como se fossem acordes musicais. Além de muitos outros personagens marcantes como o bondoso gigante negro e a terrivelmente egoísta Lujsa. A primeira coisa que pensei quando terminei o livro foi: como é que o autor conseguiu organizar todos esses personagens e todas essas histórias? Este livro é como um livro dentro do livro e muitas histórias transitam e confundem as fronteiras entre ficção e realidade. Não há uma linearidade temporal e, por isso, muitas vezes não sabemos ao certo o que é presente, passado, memória ou construção da memória ou ficção. Mas não será essa a dinâmica da vida? A certa altura da leitura, percebemos que tudo é um grande quebra-cabeças e a ansiedade em resolver o problema e ver como tudo se encaixava me levou a ler o livro em algumas horas. Me sentia incapaz de interromper a leitura. Afonso Cruz tem uma prosa deliciosa, fluída, poética, com trechos lindíssimos que me fizeram tirar os olhos do livro e olhar para o infinito por alguns segundos a admirar a enorme capacidade poética do autor e a sua sutil habilidade para me fazer pensar e me emocionar. Este livro me fez pensar sobre as nossas próprias bonecas de kokoschka. As bonecas que nós construímos, personagens que se confundem entre realidade e ficção, pessoas a quem nós atribuímos características que gostaríamos que elas tivessem. Construímos personagens fictícios a partir de pessoas reais e decidimos acreditar que elas existem tal como imaginamos. Seria essa a maneira que encontramos para amar alguém? Amor, afinal, não seria uma decisão que tomamos? A boneca é uma maravilhosa metáfora sobre amor e amizade e sobre como nos relacionamos com as pessoas ao nosso redor. Não seria possível pensar que quando construímos nossas bonecas de kokoschkas, quando construímos um personagem fictício a partir de um sujeito real, estamos na verdade fazendo uma construção de um ‘eu’ melhor? Será que não queremos que o ser que decidimos amar seja alguém melhor do que eu ou alguém que eu gostaria de ser – mesmo que ele não seja nada daquilo que decidimos acreditar que ele é? Apenas existimos através do olhar do outro. O outro é fundamental para a construção de nossa própria identidade. Essa ideia maravilhosa e profundamente humana já foi discutida pelo olhar da antropologia em Tim Ingold, mas Afonso Cruz traz uma perspectiva literária e emocionante para a relação intrínseca entre o olhar do outro e minha própria existência. Se a árvore caiu no meio da floresta e ninguém ouviu, ninguém testemunhou sua queda, então ela não caiu.

    10 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.1 / 34
    • 5 estrelas41%
    • 4 estrelas26%
    • 3 estrelas24%
    • 2 estrelas9%
    • 1 estrelas0%
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    Afonso Cruz

    Além de escrever, Afonso Cruz é ilustrador, realizador de filmes de animação e compõe para a banda de blues/roots The Soaked Lamb (onde canta, toca guitarra, harmónica e banjo). Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de sessenta países. Vive com a sua família num monte alentejano onde, além de manter uma horta e um pequeno olival, fabrica a cerveja que bebe. Em 2008, publicou o seu primeiro romance,A Carne de Deus – Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites e, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco – APE/Câmara Municipal de Famalicão. Escreveu, ainda, Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Prémio Autores 2011 SPA/RTP; seleção White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011) e A Boneca de Kokoschka.

    46 Livros
    110 Seguidores
    Coimbra, Portugal

    Afonso Cruz