Estive aguardando a estréia desse livro por muitos meses, mesmo sem ter muitas informações sobre a história, apenas pelo meu fascínio pelos livros do John Boyne. A escrita é, como sempre, deliciosa, leve e suave, apesar de narrar os acontecimentos mais sórdidos de uma guerra e da profunda melancolia dos personagens, como se quisesse tornar a história mais tolerável para o leitor.
O livro é narrado por Tristan Sadler, - nome provavelmente criado para reproduzir a tristeza do personagem, remetendo à palavra “sad”, do inglês, triste – menino inglês de 17 anos que opta por se alistar na Primeira Guerra Mundial, mais pelo desejo de escapar da sua solidão do que pelo orgulho de defender seu país. Com isso, o autor nos insere em um universo composto pela agonia das condições enfrentadas pelos soldados, pela ilusão de que a guerra seria benéfica e motivo de orgulho, pela dor dos familiares perdidos e pela intolerância às diferenças.
Após o fim da guerra e a morte de seu amigo e amante Will Bancroft, Tristan se obriga a procurar a irmã do falecido soldado para devolver alguns pertences e, finalmente, tentar aliviar sua consciência sobre o que havia de fato acontecido. Assim, o livro cria paralelos entre a vida de Tristan antes de se alistar, os acontecimentos da guerra e os diálogos entre Tristan e a irmã de seu amigo, sem seguir necessariamente uma ordem cronológica.
Se for preciso resumir a história em uma linha, eu diria que é a pura tristeza do início ao fim, mas retratada ainda com uma beleza extraordinária.
-- Quem ainda não leu e não quer SPOILERS, aconselho acabar a leitura aqui. Caso não se importe, vá em frente.--
Embora minha nota para essa obra nunca seja menor do que cinco estrelas pelo tanto de comoção provocada, eu gostaria de ressaltar alguns problemas de coerência nos diálogos entre Tristan e Marian, pois, apesar de as perguntas feitas por ela serem fundamentais para o andamento do livro, algumas não me parecem plausíveis para alguém que não conhecia inteiramente a história. Talvez a inteira personagem de Marian não tenha me convencido muito.
Mesmo assim, achei interessante a abordagem sobre o amor homossexual em um ambiente de conflitos tão intensos, como se fosse a única coisa genuinamente bela e humana possível de ser encontrada em uma guerra, mas ainda assim destruída por ela e pela intolerância da época. Intolerância essa também direcionada aos indivíduos contrários à guerra, os chamados opositores de consciência e pacifistas, que acabavam sendo considerados covardes por acreditarem que tirar vidas em uma luta não solucionaria os conflitos mundiais.
Apesar de ser considerado covarde por todo o seu grupo, Will adota a ideia de não guerrear como princípio e prefere ser fuzilado pelo exército inglês a desistir dela, coisa que tanto Tristan quanto ele mesmo acreditam ser a maior prova de coragem possível, como pode ser visto no último diálogo entre eles. Entretanto, acredito ser claro seu afeto por Tristan, apesar das palavras repugnantes escolhidas para ofender a opção de seu amigo e da justificativa dada por ter correspondido o romance em vários momentos e acredito que, mesmo sendo corajoso quanto aos seus ideais políticos, Will não foi tão corajoso quanto Tristan ao assumir o que sentia.
A cena da morte de Will foi completamente desesperadora, mas naquelas circunstâncias, não acredito que muitos agiriam de forma diferente, o que me leva a sentir uma empatia ainda maior por Tristan e carregar parte sua tristeza comigo também, ou seja, todos os sintomas de ter lido um bom livro.