Senhora Dona do Baile -

    Zélia Gattai

    Record
    1997
    302 páginas
    10h 4m
    ISBN-13: 85-01-02623-9
    Português Brasileiro

    Relato dos anos de exílio que Zélia Gattai e Jorge Amado passaram na Europa, Senhora dona do baile nos oferece, sob o disfarce da inocência, um vigoroso retrato do pós-guerra. A Guerra Fria racha o mundo ao meio, transformando as diferenças intelectuais e políticas em graves inimizades. São anos tensos, que Zélia fisga com agilidade incomum. Publicado originalmente em 1984, o livro tem início em 1948, quando Zélia e João Jorge, então com quatro meses, embarcam rumo à Europa para se juntar a Jorge Amado, obrigado a fugir às pressas do Brasil depois de ter seu mandato de deputado federal cassado. Zélia adota, aqui, o papel que mais lhe agrada: o de discreta, mas meticulosa, observadora do real. Autêntica repórter, não deixa escapar nada: a dolorosa travessia do Atlântico, a saudade imensa do lar, as precárias viagens de avião em meio a rigorosas nevascas, a destruição da Europa do Leste, os congressos e compromissos de Jorge, e a convivência com personalidades como Picasso, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Marc Chagall e muitos outros. Comovente é o modo como Zélia também privilegia as pequenas experiências e surpresas do dia a dia. Sua alma esquerdista não exclui nem mesmo a desconfiança em relação à seriedade excessiva e ao dogmatismo. Está sempre pronta para rir de si e desconfiar das próprias crenças. O casal se emociona quando, em um museu soviético, vê o berço em que Joseph Stálin dormiu. Esperta, Zélia imediatamente tempera a emoção com uma pitada de ironia, ciente de que é nas frestas do real que a verdade se esconde. Submerso em um pesado casaco de pele, comprado em Moscou e apelidado de Encouraçado Potenkin, Jorge Amado não afasta sua atenção da mulher um só minuto. Seu olhar secreto zela pela narrativa. Com sua voz altiva e singular e sem medo de ser ofuscada pela presença do marido, Zélia narra o cotidiano do casal na Europa em histórias engraçadas e tocantes, neste livro que é considerado um dos mais importantes de sua carreira.

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    Alexandre Figueiredo03/03/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A vida das memórias

    A literatura de Zélia Gattai é de uma linhagem muito específica. É preciso entender que, mesmo sendo testemunha dos eventos que narra, Zélia usa a magia da memória para criar um mundo ainda mais atraente, como se já não bastasse a sua extraordinária vida. E isso é literatura na sua melhor forma. Para entender “Senhora dona do baile” é preciso um breve contexto, que a própria autora vai nos dar. Aliás, como se fosse a avó de nossos sonhos, Zélia conduz sua história com tamanha maestria que me fez duvidar, em alguns momentos, se eu não era um parente distante - e pobre, claro - dos Amados. Tirando a brincadeira, o texto deslizante como manteiga diante de nossos olhos é uma das milhares de qualidades deste livro. Outra qualidade que vale destacar é o riquíssimo panorama social, cultural, político e ético que nos é apresentado. O ano é 1948. No ano anterior, o Partido Comunista teve seu registro cancelado no Brasil e todos os seus parlamentares entraram na clandestinidade - incluindo, portanto, Jorge Amado. Afinal, estávamos vivenciando um período político fervilhante com o início da Guerra Fria no mundo. Por aqui, os brasileiros lidavam com o fim do governo ditatorial de Getúlio Vargas e uma “aparente” democracia com o general Eurico Gaspar Dutra, que não simpatizava muito com os comunistas. É nesse contexto que Zélia, no Brasil e com um bebê no colo, resolve se encontrar no exílio com Jorge Amado, que já estava amparado pela lista interminável de seus amigos camaradas de outras latitudes. E é desse ponto que os leitores partem para uma viagem que talvez poucas pessoas no mundo terão a chance de repetir - a não ser pela literatura, claro. O interesse em uma literatura memorialista sustenta-se, principalmente, na qualidade do que se conta. E Zélia tinha muita coisa para contar. A cada página virada, pequenos segredos, muitas angústias e incontáveis alegrias são compartilhados conosco, leitores. Passamos por Bucareste, Budapeste, Moscou, Kiev, Paris, Praga, Pequim, Varsóvia… a lista não tem fim. No meio de tudo isso, peripécias com babás, a dificuldade do idioma e seus muitos intérpretes, convenções comunistas sobre cultura, festas regadas a bons vinhos e muita política, a sempre presente saudade do Brasil, a incessante busca pela paz e a invejável galeria de convidados ilustres. Esse último item, aliás, é o que desde o princípio chamou minha atenção para este livro. Pense: quem minimamente gosta e conhece um pouco de cultura não gostaria de saber o que pautou os encontros de Zélia e Jorge com os Pablos - Neruda e Picasso -, o intelectual marxista György Lukács, o casal existencialista Jean Paul-Sartre e Simone de Beauvoir, a bailarina russa Galina Ulanova (que supostamente teve um affair com o príncipe Philip e deve ter dado, à época, com perdão pelo trocadilho infame, dores de cabeça à rainha Elizabeth II) e artistas plásticos notáveis como o brasileiro Carlos Scliar e o russo Marc Chagall. É um mosaico muito preciso de um tempo que talvez jamais volte. E por isso é tão relevante. É na intimidade e na humildade presentes nas páginas de “Senhora dona do baile” que Zélia Gattai ganha seus leitores. Sem pretensões artísticas ou estilísticas, Zélia faz aquilo que todos procuramos em algum momento da vida: boas histórias.

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