A autora identifica os valores que têm definido a enfermagem como uma prática abnegada, de submissão e doação. Para entender este ponto central, ela retoma algumas questões clássicas que perpassam a enfermagem em geral, focando em experiências vividas na Escola de Enfermagem da UFBA (EEUFBA) ao longo de seus 50 anos de existência. Interessada em entender as relações de poder instituídas no campo da enfermagem, Elizete Passos tomou a perspectiva de Gênero para analisar o modo como esta área é vista como um trabalho essencialmente feminino.
De Anjos a Mulheres - Ideologias e Valores na Formação de Enfermeiras
Elizete Passos
De anjos a mulheres - Ideologias e valores na formação de enfermeiras (Elizete Passos). Melhores trechos: "...Nas sociedades primitivas, onde as enfermidades eram entendidas como provocadas por forças malígnas existentes nos indivíduos ou fora deles, enfrentar tais forças requeria conhecimento e dava a quem o fizesse respeitabilidade e posição de destaque. Desse modo, essa era uma atividade desenvolvida por homens, por feiticeiros, enquanto as tarefas ligadas não à cura e sim ao servir e ao cuidar ficavam a cargo das mulheres da família, por verem-nas como idênticas às atividades por elas desenvolvidas em casa. A experiência desenvolvida no espaço privado foi sendo transferida para o público, de modo que a prática do cuidar das pessoas da sociedade também passou a ser uma ocupação feminina e para o mesmo não havia necessidade de aprendizado, nem da elaboração de um saber específico. Era realizado através da experiência, utilizando-se um saber aprendido empiricamente. Tal praticidade além de servir para ocupar as mulheres com as tarefas consideradas de menor valor social e menos atrativas na área da saúde, servia também para desqualificar o serviço e quem o exercia, ou seja, o que futuramente veio a ser identificado como enfermagem e as mulheres... Uma enfermeira devia nutrir, dirigir, acompanhar, cuidar, e para isso ela precisava ser 'digna de confiança', ou seja, séria, prudente, atenciosa, disponível, paciente e constante. O seu dever para com a tarefa que lhe foi confiada, tida como das mais altas, pois implica em cuidar do ser humano, da imagem e semelhança de Deus, não permite descuidos. Esse comprometimento da enfermeira com o dever de servir sempre e de forma inconteste, está portanto alicerçado em princípios religiosos... Fatos como a redução do tempo do curso para três anos de duração agravavam a situação, pois além de provocar uma decaída na qualidade dos cursos de enfermagem, ao terem que condensar o conteúdo das disciplinas e eliminar outras, passava, ao nível do social, como uma desqualificação do curso, ao colocá-lo como de 'curta duração' e, assim, inferior aos demais cursos universitários, e interpretado como repassador de técnicas para o cumprimento de ordens médicas. Essa situação, aliada a antigos preconceitos sobre o trabalho da enfermagem, fazia com que a opção pela enfermagem fosse vista por muitos, nos anos 1960 e, de certa forma, ainda hoje, como decorrente de incompetência e de falta de condição para 'passar no vestibular de medicina' ou um desperdício, em se tratando de uma aluna reconhecidamente estudiosa e competente..."
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