O que logo chama a atenção nos escritos políticos da juventude de Gramsci é um otimismo com o socialismo que é um tanto romântico. Gramsci escreve sobre diversos assuntos, como a educação, a guerra, Mussolini e a religião. Aliás, é bom ler Gramsci declarando que o socialismo é uma fé, de onde ele ingenuamente crê que virá a paz. Gramsci parece ter uma certa inveja dos ritos do catolicismo que ele gostaria de ver reproduzido no credo socialista.
O teórico do socialismo vê com grande entusiasmo a revolução russa que aconteceu em 1917. Ele, de maneira equivocada, acredita que a revolução aconteceu por causa dos proletários, quando a revolução foi uma grande conspiração burguesa organizada por Lenin e Trotsky.
Uma falácia de Gramsci que ele defende no início do livro, quando ele mais uma vez parece sentir inveja dos rituais católicos da semana santa, é a de que os proletários deveriam deixar seus filhos crescerem sem religião ou doutrina para que, mais tarde, eles pudessem livremente escolher suas religiões. É claro que Gramsci e outros socialistas nunca aplicaram esse princípio em suas próprias famílias. Seus filhos são doutrinados desde cedo a amarem o socialismo e odiarem o capitalismo. É assim que a vida é em todos os casos, tanto em famílias religiosas, quanto em famílias socialistas.
Gramsci desenvolve os seus artigos tentando fazer o socialismo parecer agradável, e realmente, as opiniões socialistas de Gramsci parecem mais humanas e tolerantes do que em outros autores e jornais dessa filosofia política. O autor italiano defenda suas opiniões com grande paixão e um leve otimismo em algumas áreas. Tem defendido algumas ideias que podem ser analisadas separadamente:
A Família- Para Gramsci, o capitalismo torna a existência da família em algo extremamente inseguro por causa da luta do pai em buscar manter a propriedade privada. O homem é transformado em uma peça da burocracia e visão fria capitalista quando não pode ter certeza de que sua família e seus filhos poderão ter a sobrevivência garantida pela frágil questão da propriedade privada. Gramsci propõe o coletivismo, pois isso permitiria ao homem não mais preocupar-se em manter a propriedade privada, sendo que seus filhos teriam a educação e a vida moral garantidas pelo Estado.
A Liberdade de Pensamento- Nessa questão, o filósofo italiano critica a liberdade de pensamento liberal como sendo um privilégio burguês. Gramsci pretendia que o pensamento socialista não fosse dogmático como o liberal, mas como a história demonstrou, não foi isso que aconteceu. Parece que Gramsci pretendia que a liberdade de pensamento não significava a liberdade de propagar o erro. Liberalismo e socialismo foram e são dogmáticos. Ambos lutam pelo domínio do poder e contra a religião. São só aparentemente inimigos.
Liberdade Política- Aqui Gramsci dá uma bela de uma escorregada: defende a ditadura, para ele, a única forma de evitar-se que as minorias tomem o poder. Mas aí está a contradição! A ditadura é válida, mas não a burguesa, porque é opressiva contra o socialismo; ditadura somente a socialista, porque esta impede que o mal ( capitalismo) domine as massas. Incrível "democracia", esta!
Como todo socialista, Gramsci é otimista e pessimista ao mesmo tempo: otimista quanto às abstrações do socialismo teórico; pessimista quanto à civilização burguesa e capitalista. Quanto ao capitalismo, Marx acertou em algumas de suas críticas, e não há dúvidas em relação aos aspectos desumanos das fábricas do século XIX. Creio que Gramsci condena fortemente o capitalismo, enquanto estava cego aos problemas práticos do socialismo. Sua análise da guerra civil russa está correta: os países capitalistas não tinham o direito de terem invadido a Rússia para defender o exército branco. Sua paixão e a falta de informções corretas sobre o andamento da revolução não permitiam, no entanto, que Gramsci observasse a brutalidade com que a revolução estava sendo implantada.
Gramsci repete o mantra da utopia socialista: uma sociedade sem classes! Vejamos se isso é possível:
No capitalismo nós temos- O Presidente ( Rei ) ,a nobreza ( os ricos capitalistas) ,o clero( católico ou protestante) e os camponeses
No socialismo, que Gramsci não previu, nós temos- O ditador ( Lenin, Stalin, Mao, Pol Pot, etc), a nobreza ( o comissariado e os burocratas do comunismo), não temos clero ( foram fuzilados ou internados em hospitais psiquiátricos e em campos de concentração) e os camponeses.
Qual é a diferença entre o capitalismo e o socialismo? Não existem as mesmas classes? Tirando o clero,é claro, pois a fé comunista não admite outros deuses diante de si, é quase tudo igual . Gramsci, pelo menos nesse primeiro volume de seus escritos, não podia ainda perceber que a revolução não acabou com as classes, porque elas continuaram existindo.
O princípio defendido pelo teórico italiano de uma sociedade sem patrões não tem qualquer base histórica. Nos países capitalistas nós temos patrões, mas em um país comunista nós temos um super-patrão ( O Estado). É o mesmo princípio famoso do Non Serviam bíblico. Lutero recusava-se a reconhecer seus superiores nesse mundo por causa de seu orgulho. O mesmo acontece com o homem socialista. Gritam aos seus patrões ( superiores) não servirei!, dessa forma dizendo que somente reconhecerão um outro patrão, muito maior, mais injusto e contra o qual poucos podem se rebelar: O Estado.
Gramsci, assim como os liberais, tinha profunda aversão aos sindicatos, propondo substituí-los por um sinistro conselho de fábrica, onde o indivíduo é aniquilado para a submissão ao chefe do conselho. Tudo no socialismo proposto por Gramsci é a adoração ao Estado e ao coletivo, com uma subsequente desvalorização da personalidade individual.
Gramsci, em determindado momento de seu artigo ” partido de governo e classe de governo”, faz apologia da fome aos não-operários. Gramsci escreve: ” Se existe uma disponibilidade média de apenas 200 gramas de pão por dia para cada cidadão, é necessário que exista um governo que assegure 300 gramas para os operários e obrigue os não-produtores a se contentarem com 100 gramas ou mesmo menos(!), ou mesmo nada(!) se não trabalham, se não produzem”. Eis a maravilha que é o governo operário de Gramsci.
É notável essa mentalidade de matar de fome os camponeses, inválidos e os que vivem de renda que Gramsci e seus companheiros de ideologia proclamam. Daí podemos entender as fomes na Rússia, China, Camboja e outros lugares governados por comunistas. O governo operário é místico. Sim, porque acredita na mística da produção industrial de determinados produtos, enquanto os camponeses morrem de fome com requisições de alimentos fora da realidade para sustentar a produção das cidades. Seria ridículo, se não fosse diabólico, ter que ler essas coisas de um teórico do socialismo.
Esse primeiro volume dos pensamentos de Gramsci revela um espírito apaixonado pelo socialismo e a revolução, mas também revela um homem que se contradiz em alguns momentos. Defender a liberdade sob o socialismo, ao mesmo tempo em que apoia a revolução para impor a ditadura e derrubar o governo burguês. Gramsci certamente era muito inteligente e escreve bem, mas o socialismo não produziu, talvez, o tipo de sociedade imaginada por ele.
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