Como reconstruir um mundo?
Durante muito tempo, Tolkien foi considerado um dos maiores escritores de universos mitológicos da fantasia, mas seu trabalho não é puramente original. De fato, qual é? O universo tolkiano é uma remodelagem de mitos europeus e histórias clássicas, o trunfo do autor não foi então puramente sua criatividade, mas a capacidade de descrever algo tão fantástico e ainda assim real.
A trama de O Senhor dos Anéis é simples: a missão de um grupo para destruir uma arma e salvar o mundo. Essa proposta básica se desdobra, segundo alguns, de sua experiência durante a Primeira Guerra Mundial, porém o autor quase não faz descrições de batalhas - a própria violência explícita é inexistente em sua obra.
O que transforma então a história da Sociedade do Anel e suas sequências é o mundo revelado. A característica que tornou Tolkien um dos autores mais publicados é também aquela que o faz ser um dos mais abandonados: a descrição. Não estamos apenas caminhando pelo Condado, sentimos o cheiro de sua comida e a sedosidade do capim em nossos pés.
Aragorn não é apenas o Rei - é a figura renovada de Arthur, o rei mitológico que um dia retornará para a Bretanha. Bilbo e Frodo e todos os outros hobbits são uma representação precisa do homem-inglês ideal: alguém ardiloso, mas gentil, cuja fúria é terrível ainda que raramente suscitada.
O Senhor dos Aneis, seus outros livros, o próprio Sindarin, são todos pedaços de uma imaginação não tão diferente da nossa tupiniquim que ainda acredita na volta de Dom Sebastião e que a morte de caçadores vem da vingança da Caipora. Mudam os nomes, ficam os mitos.
Recomendo.