Fédor M. Dostoievski (Encanto Radical) - O operário dos destinos

    Regis de Morais

    [São Paulo] Brasiliense S. A.
    1982
    114 páginas
    3h 48m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Tarde, bem tarde da noite, ele caminhava para seu escritório, levando nas finas mãos a matéria bruta do cotidiano. Logo, a madrugada soprava seus sortilégios e o operário de destinos opunha ao enigma da vida um outro enigma mais formidável: a transfiguração da dor em Arte. e então, depois de muito trabalhar e esculpir e ´polir, 'expunha a todos o cintilante rosto de humana com seus traços de espanto. Por esta razão, até hoje o operário de destinos chega a nós e diz: "Sou Fédor Mikhailovich Dostoievski. Permita-me entrar e mostrar-lhe as muitas vidas que arranquei da minha vida. Seremos um, nos porões da inquietude."

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    Marcos Aurélio Carvalho26/04/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O Canalha Stielovsk

    Impressionante como o ser humano pode ser genial, mesmo vivendo em ambientes atribulados. Como pode criar, mesmo não tendo paz. Acontece quando deixamos o projeto, o trabalho, a tarefa para o último instante. E, somos tomados por uma inspiração que nos permite terminar e entregar no tempo previsto. Sem julgar, apenas refletir, o quanto situações semelhantes acontecem conosco. Dos casos narrados nesta, que foi minha primeira conversa sobre Fédor Mikhailovitch Dostoievski, o mais impressionante foi o negócio entre o escritor e o "editor canalha", chamado Stielovsk. Dostievski passou uma vida de aperturas, vícios, exageros e tribulações. Talvez nunca tenha escrito um romance por prazer, por amor ao ofício. Seus trabalhos eram praticamente encomendados e mal negociados, porque precisava do dinheiro para pagar dívidas e sobreviver. Em 1866 Stielovsk propôs-se a publicar as obras completas do escritor em volumes, mediante adiantamento em dinheiro. Em troca, deveria receber até o dia 1º de novembro de 1866, um romance inédito, sob pena de Fédor, não preparando o romance inédito no prazo, ceder todos os direitos autorais passados e futuros ao editor. Em outubro daquele ano, quando se deu conta de que perderia toda produção de sua vida literária, o escritor se desesperou. Relutante, aceitou o conselho do amigo Maikov para contratar uma estenógrafa. Ana Grigorievna foi enviada pela escola de estenógrafas, e ajudou o escritor a cumprir seu objetivo, no dia em que venceria o prazo. Ao tentar entregar o romance ao editor, deparam-se com escritório fechado, e ninguém para receber os originais. Configurado o golpe do editor, Ana empenha-se em ajudar Dostoievski. Um advogado consultado por Ana, aconselha-os o depósito dos originais em cartório contra recibo. Estando os cartórios fechados, Fédor e Grigorievna passam parte da tarde aguardando na porta da casa do Comissário de Polícia, aguardando seu retorno. Quando este retorna, Fédor entrega-lhe o romance, contra recibo, cumpre o contrato e escapa da escravização a que estaria sujeito. Ao mesmo tempo que esteve nas mãos de um canalha, o escritor encontrou apoio no conselho do amigo Maikov. Em Ana Grigorievna, Fédor viu algo mais que comprometimento com a causa, e se apaixonou pela estenógrafa. Casaram-se, tiveram filhos e foi Ana sua companheira até o fim da vida, em 28 de janeiro de 1881, em Saint Petersburgo (Rússia)

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